24 junho, 2009

De mim.

Se vencida uma batalha, alegorizasses a vitória
Não te magoavas tanto príncipe duvidoso.
Não perderias tu o tempo nem ele a razão
Que te dá um Deus misericordioso
Quando na ausência de presença o desafias glorioso
Em troca do que juras em vão.

Não gastes à toa o que te sobrou dessa festa
Que em ti se viu desfeita sem um assentimento meu
Guarda-as em ti quando é tudo o que te resta
Contador de histórias, leviano proclamador
Dessa honra que é viver debaixo de um céu
De onde chovem palavras ao desbarato
Que por si mesmas deviam reclamar anonimato
Até que ao menos no mundo acabasse a dor.

Usa-as só como tu sabes, mas não te percas tanto nelas.
Fazes quem em ti tanto crê crer
Que assina por baixo na fonte dos embaraços
Quando tudo quanto que lhe alimenta o ser
É o desejo de paz dessa alma amargurada
À deriva rumo aos não requisitados abraços
Que silencias a cada madrugada.

Lembra-me quem és tu, e não porque existem elas.

Puzzle

Imaginei-o ali, imóvel, alheio ao zunido remoto da destruição, a vislumbrar a paisagem enterrada, a procurar-se por entre aquele reboliço barulhento e empoeirado de maquinaria e desconhecidos – a admirar tudo o que já lá não estava.
Como a criança que vê a sua prenda perfeita de novo embrulhada, a ser levada de volta para a loja.
Suposições.

18 junho, 2009

Eu disse que ela voltava.


Não tenho como não fazê-lo.


"Usou-me, sim, Sininho, como eu a usei a ela, como nos usamos todos. A vida consiste nisso mesmo: em que nos usemos, da melhor maneira que pudermos. Usei-te eu como devia? Porque me sobras tanto, ainda?"
Inês Pedrosa

Há momentos em que me apetecia ouvir a campainha tocar, ir abrir a porta e encontrar um sorriso sem segredos, trazendo nas mãos uma caixinha de mini-pastéis de nata salpicados de canela e dois dedos de conversa.

O Chris Daughtry gosta de lhe chamar "Home".
Eu prefiro chamá-la "música da sexta-feira". =)

Não podia ser mais perfeita.

"And the pain you feel's a different kind of pain"

16 junho, 2009

A inexistência de qualquer réstia de vontade para estudar patologia neste momento e, mais especificamente, neste lugar, tem destas coisas. Arranja-se qualquer desculpa para escapar ao amanhã, até mesmo tempo: tempo que não existe.
Ou não será este um remendo mal alinhavado, refugio das outras horas em que se esquece de viver, de deixar que o tempo venha e vá, como quem acaricia ao de leve para não deixar marcas, dando sempre lugar ao tempo filho do mesmo pai que se lhe segue, que nem um fio de seda que ondula sobre o vento, sempre na mesma direcção.

É, emaranha-se nele, esquece-se de deixar que ele passe. E depois quando se lembra larga-lhe as pontas presas, sacudindo-o como um lençol amarrotado, e o tempo solta-se, livre: que nem o pássaro incrédulo que vê miraculosamente aberta a porta da gaiola.


15 junho, 2009

Bingo!


Quando criei este blog foi com o propósito de ter um espaço onde pudesse partilhar um pouco de mim, através das minhas palavras. Mas acho que para partilharmos aquilo que somos, podemos por vezes também utilizar as palavras de outras pessoas. É também para isso que afinal existem os livros, os blogs. Para partilhar com outras pessoas o que já partilhamos com alguém. Uma ideia. Um principio. Várias verdades. Uma forma de crescer.
E a verdade é que ando a ler um livro que me incita constantemente a citá-lo, ou melhor, a citá-la - Inês Pedrosa - pela forma quase descarada com que me lê, quando devia ser eu a lê-la.

Fica aqui portanto um pequeno excerto, da última página lida. (Espero que ela não se importe! Porque provavelmente hão de vir mais.)

"A escritora chorava, com a escova do rímel na mão, e o rímel a enegrecer-lhe as lágrimas.
- Deixa lá. Põe a tua opinião num jornal. No jornal eles são obrigados a ler.
Ela riu-se.
-Estou a chorar porque o Sousa Neto me deixou. Estou a chorar por ele; Treino as lágrimas que ele vai chorar no meu romance, quando quiser voltar para mim e já for tarde demais.

Estás a ver porque é que eu preferi desistir dessa nossa ideia infantil de escrever romances? Já há tantos, hoje - e são tão parecidos com a mentira hiper-realista da realidade. Já há tantos, meu querido - ao menos nunca foste nenhum Sousa para mim."


14 junho, 2009



Tendo em conta que, à pala da multidão que decidiu ir passar o fim-de-semana prolongado ao Algarve, estou a modos que sensivelmente um hora atrasada (e como até não tenho nada para fazer ainda hoje...!), parece-me que pelo menos este video se deve adequar consideravelmente. (E só não grito assim como ele porque possivelmente me expulsariam do autocarro e aí é que não chegaria mesmo a Lisboa hoje).
E aproveitando a desculpa do trânsito, e tendo em conta a falta de tempo ultimamente para as coisas boas da vida, isto até que soa quase como um "afinal ainda existo", independentemente de quem se possa ou não lembrar ainda deste sitio meio abandonado e da inapropriada probabilidade de estar para aqui a monologar insistentemente. Enfim, não há de ser assim tão inútil como parece. Ridiculo mas não inútil. Juro que tenho tido, e até escrito, uma série de ideias para (carinhosamente) espetar aqui, mas amigos, o máximo de tempo que arranjo só dá para as ir anotando no telemóvel ou aqui e ali em lugares menos próprios para tardiamente, em momentos como este, as deixar aqui. Sorte a vossa.

06 maio, 2009

Abreviatura.

É assim que eu gosto. Que surja de mansinho, indiferente ao real. Que não tenha as chaves da porta. E que também não precise tocar à campainha. Que entre pela janela virada para o rio, descuidadamente pelo acaso deixada entreaberta, por detrás de um olhar esquivo que se esconde do que não vê. Que não tenha porquês e não saiba o que é um mas. Que seja imprudente e irracional. Um anónimo para o destino. Uma surpresa para a coincidência. Que seja permanente. Inabalável e palpável. Crente. E que tenha o mundo por descobrir.
Era assim que eu gostava.

29 abril, 2009

Homenagem bem merecida.


Só para dizer isto:

Feliz Dia mundial da Dança a todos os dançarinos (e aspirantes a!) deste país! =D


31 março, 2009

Entreaberto

E de vez em quando, se o tempo o permitir, percorre-lhe ainda os dedos aquele gozo que se formou hábito: renasce ainda aquela outra vontade de escrever.
Pega no caderno, prepara o lápis, de ponta por afiar dirigida para o papel. Linhas azuis bem definidas, vazias, apoquentadas pela ânsia de servir, de carregar sobre a sua fragilidade a tinta grossa e penosa que faz jus às não vontades do seu criador, desenhando riscos flutuantes que aos poucos vão pousando como pó, sobre os carris incestuosos e paralelos, que a quem os fitar, gritarão palavras e palavrões circunscritos: populações analfabetas que jogam letras na roleta, para que se emaranhem e fecundem, numa fila descontinua e lacrimejada, de sortes e escolhas atiçadas, empurrando-se umas às outras por um lugar no inicio da página, no meio do verso, no fim do parágrafo.

Fica então entreaberto: o portão do jardim onde paira o seu retrato, balouçado pelo ar corrente que se afunila e se expande pela ranhura fresca e reluzente, e que inspiro, como um ópio particular.

21 outubro, 2008

Uma noite para comemorar, onde o mundo é um pouco de céu para quem jurou cumplicidade, de olhar preso ao lume vivo, espelho de cada lugar que é teu...



Um momento mágico. Minutos de pura inspiração, pelos quais toda a gente deveria passar pelo menos uma vez por dia, todos os dias. E a vida pareceria tão mais fácil...

É caso para dizer..." E que a Mafalda vos acompanhe!"

Bonita noite a de ontem =)
Obrigada aos intervenientes ! =)


"Mesmo que a vida mude os nossos sentidos,
E o mundo nos leve pra longe de nós,
E que um dia o tempo pareça perdido,
E tudo se desfaça num gesto só..."

Ainda assim, estão guardados.



08 outubro, 2008

Parágrafo.





O autocarro estava quase cheio. Um rapaz no banco da frente revirava-se de instante em instante tentando arranjar uma posição mais cómoda para dormir. A vários bancos atrás, um miúdo, talvez nos seus dois anos, abraçado à avó choramingava, chamando pelo irmão e pela mãe que tinha deixado para trás, onde ele já não estava. No banco imediatamente atrás, um homem, numa língua que não a delas, continuava o seu longo diálogo de intensas três horas (ou pelo menos para quem o ouvia). Conscientes e tranquilas, de auscultadores nos ouvidos, a Determinação e a Coragem, de decisões entrelaçadas e desenhos reflectidos, olhavam agora para a imensa Lisboa, disformemente matizada por milhares de pontos cintilantes disputando a atenção alheia, e que, levando o tempo necessário, se aproximavam a cada instante mal vivido, pacientemente: o autocarro deslocando-se sobre a ponte, de encontro a uma cidade viva; e uma cidade ansiosa por viver, mergulhando-se no rio de encontro a um tempo que já existiu.
Uma lua dourada, pequena, cresce timidamente diante dos seus olhos, grandes. A música faz-se sentir e o momento acontece: na plenitude traída, a felicidade é cimentada, caiada: E aí, aí surge vida.

01 outubro, 2008

Da Imperfeição.


Chora. Chora tudo. Não guardes em ti, para ti, nem uma lágrima. Grita. Faz-te ouvir. Fá-los ouvir. Porque ninguém se importa realmente. Porque ninguém chorará contigo, em ti, por ti. Cada um chorará por si. Lamentará por si. Revolta-te. Revolta-te por chorares por eles, para eles, por ti, e sempre só para ti. E chora. Chora por teres que chorar, por ti, por eles. Faz entoar dentro de ti os ultimatos, as razões e as respostas: A culpa. Chora a culpa, que é só tua, por teres de chorar: Fraca. És fraca. Por isso é que choras. Não é por eles, nem por ti é. Esqueceste-te de porque choras. Ninguém irá ouvir. Fraca. Pára de chorar.

30 setembro, 2008

Sou.


Um misto de vontade e submissão.
Um fôlego de esperança, um arrebatamento de evidência.
Um pedaço arrancado e acorrentado ao peito.
Um desejo de ir e a promessa de ficar.
Uma resposta. Duas perguntas.
Uma cópia do vivido e consumado.
O desconsolo. O fogo retratado.
Todos os futuros, filhos de um só passado.

Um acorde. Uma palavra. Tantas vidas.
A folha. O vento. O instante interrompido.
Uma incerteza entre tantas certezas incertas.
Alguém que quer ser e não sabe como.

22 setembro, 2008

Outono

Quando a Eva me contou que te tinhas mudado eu não acreditei. Não que isso não pudesse acontecer, afinal a casa já não vai para nova, mas sempre achei que isso não estivesse nos teus planos, pelo menos por agora. Pelo menos dessa maneira.

Cheirava a chuva e a pipocas doces. O ar estava despropositadamente abafado. Ia a caminhar para o carro, quando uma voz inconfundível e familiar adivinha o meu nome. O rosto remetente sorria: uns olhos grandes, dos quais nunca consegui decifrar a cor, atravessavam-me, doces e desassossegados.
Ainda nessa manhã, como poderia ter sido noutra, como era em todas, eu olhei para ele. Desde o dia em que mo deste que o guardo naquela gaveta. Ofereceste-mo, mas não me explicaste como deveria cuidar dele. Já pensei em pô-lo num vaso de pé alto ao pé da orquídea e regá-lo, esperando que recuperasse o brilho de outrora, mas ele não me pareceu muito agradado com a ideia. Uma tarde destas, peguei-o com jeitinho e pendurei-o por uma corda na varanda, confiando que quando sentisse o ar e o aquecesse delicadamente, rejuvenescesse e se lembrasse dos seus tempos de glória e de ser imprescindível e admirado, por tudo quando é ser vivo, que era. Mas também não resultou. Resignada, voltei a guardá-lo na gaveta da mesinha de cabeceira: um Sol abatido, fosco, de raios franzinos, lamentando-se, em silêncio.
Ela não se apresentou. Sabia que não precisava apresentar-se, assim como sabia que eu nunca a tinha a visto, assim como sabia que eu não a conhecia, assim como sabia que eu sabia quem ela era. Contou-me como passou por ti e te cumprimentou e tu fingiste que ela não estava lá. Contou-me como te perguntou o que estavas a fazer e porque tinhas o carro carregado de tudo. Contou-me como tu a olhaste: olhar vazio, inundado em dúvidas construídas sobre certezas: umas que conheces, outras que nem tanto. Explicou-me como, sem palavras, lhe pediste que não fizesse mais perguntas e que te deixasse sozinho. Disse-me que estava preocupada, e foi-se embora. Não sei para onde foi, mas eu não esperei para ver.

Foi assim que soube que te tinhas mudado. Não te telefonei a perguntar porquê, nem para onde, porque ainda antes de partires, disseste-me que tinhas voltado. E há vazios que pressupõem a inexistência de perguntas.
De todas as vezes que por lá passei, olhando de forma mais ou menos discreta, mais ou menos convicta, de todas as vezes, encontrei a janela fechada e a persiana corrida, com apenas um palmo, o mesmo palmo, de janela descoberta até ao parapeito. E de todas essas vezes, atravessei a rua, devagar, e através da noite espreitei pela persiana quase fechada. Uma noite mais negra que a da rua vivia-se no interior da casa.
Foi tudo o que fiz e culpo-me por isso. Apenas por isso.

Há momentos perpétuos e instantes mágicos. Ou porque assim nasceram ou porque assim as pessoas o viveram. Há palavras quase perfeitas, que preenchem os dias de forma perfeita. Porque o dito não pode ser dado como não dito, quando é dito de forma quase perfeita, apenas porque perfeito nada o é.
E há pinturas resplandecentes que atraiçoam o olhar e o acusam de cegueira e de falta de autoria...

11 setembro, 2008

Pedaços

Antes que deixe de fazer sentido: também. Antes que se consuma, ou se reduza a pó, ou antes que o pó se derreta em formas esquivas e descuidadas. Antes que se arraste cambaleante para a inutilidade. Não: é porque já fez parte: já foi sinónimo, já foi definição. Mas hoje já não tem chão. Talvez não sejam boas razões…
Então, porque hoje é o dia de hoje. Está melhor?

09 setembro, 2008

Nove.

Ela sabia que esse dia lhe pertencia. O terror desmesurado que trazia consigo desde aquele dia, logo se emancipou, selando-lhe os sentidos. O instinto incontestável de sobrevivência percorria-lhe o corpo, imóvel, zelando para que os seus pés se enterrassem na areia inquietantemente fria que abraçava o louco mar à sua frente. A sua paixão pelo mar era incoerentemente profunda. Mas o medo perante a imensidão onde não se conhecem tréguas, a deslocavam para casulos claustrofóbicos onde a única saída é a cega profundidade. Mas a única carreira ainda de partida era aquela. Em frente.

A espuma salgada fervilhava sobre a pele anestesiada, como um sangramento efusivo e descontrolado em contramão. O peito gelava, numa contagem decrescente de vida e crescente de liberdade. Não olhou para trás, porque esse caminho já o sabia de cor. Era em frente que queria ir. Era para baixo que o vazio sob os seus pés a levava. Foi quando a maré a trouxe: perfumada, decorada pelo luar: longe. Como um sopro asfixiante, sentiu-se elevada pelo colo da onda e envolvida no seu cobertor maternal: que em seus braços de frescura aconchegou-a, e perdeu-a para a escuridão. Para o nada. E é nessa altura que, à velocidade da luz, como um efémero arrepio, se sente vestida por um leve e incontornável arrependimento. Um som de pânico lhe percorre as entranhas. Sente os ouvidos esmagados pelo silêncio mergulhado. Os olhos suplicando por luz, fecham-se, contrariados pela evidência. O pensamento não existe: alivio. Pânico. Apenas porque tem de ser assim, movimenta os braços e as pernas em gestos largos e pouco decididos. Rendeu-se, mas não desistiu. Por fim desistiu, mas não perdeu a esperança. Sabe por que não a perdeu, mas não sabe por que a tem. Deixa-se levar pelo peso descoordenado do próprio corpo até à escuridão. Os pulmões gritando por vida pareciam querer rebentar dentro de si mesmos. Um ardor cortante a percorre por dentro. Vozes imperceptíveis sem remetente eclodem de todos os lados. Imagens mais que nítidas lamentam as escolhas. Rostos sãos e tristes relembram o que não volta. A dor de todas as horas que não renuncia…
Noite. Nove. Estrelas. Liberdade.


(Posteriormente publicado em
Fábrica de Letras, desafio de Agosto "Uma longa viagem".)

16 julho, 2008

Música #7




Porque tou sem vontade de escrever.
Mas é como se escrevesse.

"Eu finjo ter calma..."

30 junho, 2008

IX

Chegámos. Desde a primeira visita que fiquei deslumbrada com este bairro: Aparentemente calmo, vizinhos tantos quanto basta e duas ruas enveredadas em espaços verdes. Exactamente como eu gosto. Orgulhosa pela minha tão feliz escolha (talvez de longe a menos pensada), retiro a chave da ignição e saio do carro, um renault clio azul, recentemente comprado. Empolgada com a importância do momento, faço caminho até à porta do prédio e, pausadamente, absorvo cada instante, cada silêncio e cada ruído distante, cada movimento ocasional, cada gesto propositado, respiro fundo e digo… “Estamos em casa”.
Mal abro a porta, sinto o cheiro a tinta fresca que percorre ainda a longa escadaria, de vidrais virados para poente. Percorremo-la devagar, prolongando a ansiedade, construindo os alicerces para as saudades que ainda estão para vir. – “Abre tu” -peço-te, estendendo-te a chave. Acedes ao meu pedido e descerras este nosso novo lar.
Ainda são muito poucos os móveis que a preenchem, dando-lhe um ar ainda mais espaçoso e arejado do que já realmente é. A escassa mobília de linhas direitas em tons cremes, condizendo com o pequeno sofá, parece em sintonia com o azul claro e disforme que perfaz duas das paredes da larga sala, numa das quais, uma enorme tela retrata um mar cristalino debruçando-se em ondas de espuma branca sob a límpida areia, como se vivo, despontasse da parede. O sol quente de fim do dia atravessa possante a grande janela de dobradiças brancas, ainda sem cortinas, espalhando seus raios firmes pelo chão luzidio. Desta janela, emerge uma comprida varanda sobre o jardim do prédio, recheado de amores perfeitos e rosas brancas. Abro o vidro até ao limite, para que o ar corrente que nos traz a rua nos encha de vida este nosso espaço.
Ficamos ali, olhando a rua e as pessoas que lhe dão um sentido. Respirando o sol que, sem pressas, se vai escondendo atrás do formoso chorão de galhos fartos. Sei que gostaste. Sinto-o. E isso é-nos suficiente.

A campainha toca... Como que quebrando o feitiço por obrigação.
Vou abrir. É ele. Uma voz hesitante de quem trespassou cercas privadas acaba por suspirar - “Desculpa se venho incomodar, não sei se estás acompanhada… Posso entrar? ”. Viro-me para trás, percorrendo com o olhar toda a sala. Vazia. Estendo o braço em sinal de recepção e um sorriso por escrever responde – “Estou sozinha. Entra.”

10 junho, 2008

Quero.

Quero a minha casa. Quero o meu quarto. A minha secretária, a minha cadeira, os meus marcadores, as minhas fotos, os meus livros, o meu rádio, as minhas gavetas, a minha cama, as minhas paredes. Quero a minha irmã, quero os meus pais, quero os passeios nos feriados, quero os domingos à tarde, quero as novelas da noite na sala. Quero as conversas no quarto até às tantas. Quero ouvir as gargalhadas e as corridas no corredor. Quero rir contigo, quero rir com eles. Quero a minha viola, quero a minha varanda. Quero a hora do lanche com ela. Quero o jantar com todos. Quero a hora do almoço deles. Quero as músicas infantis. Quero as brincadeiras infindáveis. Quero os filmes da Pipi. Quero o sair de carro. Quero o ir às compras. Quero o gelado ao pé do rio. Quero as visitas da minha madrinha nos sábados á noite. Quero ir jogar à bola com ela no jardim. Quero os passeios de bicicleta. Quero o meu gosto por estudar. Quero os meus horários malucos. Quero o futsal. Quero a dança. Quero as quintas á tarde na casa da Mena. Quero o voluntariado. Quero a minha escola. Quero os meus amigos. Quero a minha cidade. Quero a minha saúde. Quero a minha vontade. Quero o meu mar.
Quero voltar. Quero continuar.

Não quero ter saudade.


Um dia.

Um dia vou contar-te ao ouvido como foi, como é. Vou mostrar-te os rascunhos, vamos cantarolar juntos todas estas crónicas perfeitas que ouço enquanto apago o que escrevi, o que prometi não eternizar, nestes testemunhos rasurados, desbotados pelos transbordos salgados, que de dia são súplicas e à noite prantos. Um dia tu vais vê-lo. Vais folheá-lo vagarosamente e vais suspirar cada palavra despida, cada instante enclausurado.
Nesse dia, vais ler-te: insaciado, adormecido por entre as veredas espinhosas dos roseirais que plantaste. Fixarás o teu reflexo e descobrir-te-ás, estarrecido. Recordarás as pegadas que deixaste, desenhadas nos murais do ser insólito que repartiste entre teus submissos soldados. Já tarde, vais perceber o que te escrevo e porque te dirijo meus monólogos desencorajados. Não é por banalidades irresponsáveis. Não é por desejos carnais nem súplicas incoerentes. Não são declarações. Não são pedidos apaixonados, nem lamentos adolescentes. São frutos colhidos do mesmo ser, outrora rasgado e semeado em duas rectas perpendiculares, e que em portos ilusoriamente recuados fazem juramentos e quebram raízes que abatem a calçada. Abrem desvios pelo mato denso e palmilham descalços o inóspito firmamento. Destinos congénitos unidos erroneamente pela suposição. Um único caminho, percorrido a duplicar.
São estas as certezas de quem se lê de dentro para fora e se completa nas entranhas do que não é. Afinidades eloquentes entre vozes encanastradas, unidas e tecidas em quilómetros vastos de seda firme, pregadas nas palavras proferidas que carrego comigo, e nos silêncios que assentam na razão do que não foi uma escolha, mas que por louca obediência às crenças erigidas, se vive e permite, ainda que porventura sem saber, o alastramento da vida deste único ser.

08 junho, 2008

Música #5

Vinha a ouvir esta música no autocarro ainda agora (numa das muitas viagens que faço todas as semanas, já nem me lembro desde quando) e achei que seria uma boa música para vos deixar aqui. Gosto do dueto... Acho que são 2 vozes que se completam de uma forma muito especial. Só é pena não ser o videoclip, mas não deu para arranjar.

"Leve e que te beije, Meu anjo triste."


04 junho, 2008

Estado:


Revolta.

Porque não tem que ser tão dificil.
E, principalmente, porque há consciência disso.
Sabe-se o que fazer e porquê.
Sabe-se como.


Então,
O que falta?

03 junho, 2008

VIII

Nada. Era tudo o que conseguia ver. Tento a custo levantar as penosas pálpebras, escancarar minhas janelas para o mundo, para que lancinantes me quebrem a escuridão que me preenche os olhos. Pestanejo sofregamente para recuperar a visão inexistente mas continuo sem enxergar nada. Numa atitude já desesperada, levo as mãos aos olhos e esfrego incessantemente na ânsia de os conseguir pôr em contacto com a luz, mas em vão. O único sinal de vida que os meus dedos encontram, são poças a transbordar de água salgada, de um fundo negro em cicatrizes de guerra sobre as mágoas sepultadas. Assustada, entro em pânico e começo a gritar. Mas não consigo ouvir a minha voz. Grito ainda mais alto e continuo sem me ouvir. Descontrolada e sentindo a consciência a fraquejar, tento erguer-me da cama mas não consigo. Levo as mãos às pernas para tentar movê-las mas não posso. Elas não estão lá. Sinto a cabeça em queda livre para o vazio que não acaba nunca, a respiração arquejante, o coração enlouquecido que reclama liberdade e cada poro inundado de água fervilhante. Jogo as trémulas e gélidas mãos em todas as direcções, tão longe quanto me é possível alcançar, palpando o ar, tocando o desconhecido, na esperança de te encontrar.
Subitamente, o mais terno e suave dos toques me envolve e afaga as mãos entre as suas, acarinhando-as e enleando-as irreversivelmente entre seus laços de certas incertezas. E no mais confiante dos abraços me deixo desfalecer.