30 abril, 2010

Make 'Em Laugh

Para assinalar o dia mundial da dança (ontem!), lembrei-me destes verdadeiros acrobatas (ou será mágicos?) da 7ª arte. A ideia (pois está claro) era ter posto este video aqui ontem, mas como não deu, cá vai ele agora =)
Quem ainda não viu o filme, aconselho vivamente que veja!

(Não se admirem do video não dar para ver aqui no blog, mas não deixaram!)

Quando o que procuras encontra-te, e tu continuas a procurar...!

27 abril, 2010

15 abril, 2010

Seria um dia de chuva normal, não fosse o facto de estarmos em Junho. A tinta azul da janela estalava de cada vez que o vento escorraçava a água aflita por pousar em qualquer canto escondido. Um raio ao longe, um estrondo perto – um clarão que mata à distância, uma batida forte que estoura cá dentro.
Se a trovoada era motivo de aflição para alguns, para ela era mais um bom motivo para se ir sentar junto à janela, à espera da noite que não tardaria. Da janela não via mais do que uma casa, onde junto à portada de vidro fosco, adivinhava o vulto de uma senhora a costurar, havia já muito tempo, ora não fosse ela desperdiçar algum raio de luz fugidio que por ali vagueasse. Havia algo de especial naquela senhora cujos traços nítidos até agora só imaginara. Ou tinha que haver. Como poderia de outra forma poder explicar o facto das roseiras que esta plantara no improvisado quintal da frente da casa permanecessem carregadas de cores voluptuosas o ano inteiro, com chuvas e noites extenuantes que com certeza ultrapassavam, em pelo menos mil, as dos outros anos.
Foi enquanto se revolvia em pensamentos mágicos para explicar o infinito, que reparou num menino de calções vermelhos, agachado, e totalmente encharcado, encostado à parede lateral da casa da sua vizinha ilusionista. Não lhe conseguia ver o rosto, que escondia entre os braços entrelaçados sobre os joelhos, aparentemente feridos. Entre os dedos, abreviava o que se assemelhava a um lenço branco. Preocupada com a criança – ou com a sua exoneração – fitou a chuva, talvez numa tentativa de a abrandar, e saiu, para a torrente que se debatia pelas ruas.
Quando chegou junto ao intacto roseiral, do rapaz já não havia sinal. No chão, uma poça de água tingida de branco, desdobrava-se em mil caminhos pelas pedras truncadas da estrada. E por entre a aparatosa chuva, um doce aroma a rosas aproximou-se dela, em sintonia com uma voz inesperada, que recebe sobressaltada:
“- Por mais que tente, será sempre tarde demais.”
Junto à porta aberta está a vizinha, de sorriso vago, a olhar para um relógio de bolso que segura na pequena mão: a mão de uma menina que não terá mais que dez anos, porque a vizinha não terá mais que dez anos. Sem desviar o olhar do relógio, retira do bolso do pequeno avental uma fita branca que enrola à volta do relógio. Nesse momento, em vez de chuva, desbocam palavras das nuvens cinzentas. E de onde outrora rompiam trovões e esboços desenhados no céu, ecoam violinos e acordeões. E o relógio da vizinha cansa-se, como o dia que se faz noite, como uma prece que se desanima, que se esvaece, só porque alguém soprou.

"Destinos"

O pai tem a ideia;
A filha timidamente aceita;
E a irmã assiste divertida.
=)

17 dezembro, 2009

Se o que mata mais é não ver...

Pedes-me um tempo, para balanço de vida.
Mas eu sou de letras, não me sei dividir.
Para mim um balanço é mesmo balançar,
balançar até dar balanço e sair...

Pedes-me um sonho, para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho, só dos de voar.

Agarras a minha mão com a tua mão
E prendes-me a dizer que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer, mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde e não ter
nem sentir o vento ardente a soprar o coração...

Pedes o mundo dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes, quando falha o chão,
o salto é sem rede e tens de abrir as mãos.

Pedes-me um sonho para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte se volta a colar.
E agarras a minha mão com a tua mão
E prendes-me e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer, mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde e não ter
nem sentir o vento ardente a soprar o coração.

Músicas perfeitas como sempre.

09 dezembro, 2009

Às vezes minto tão bem a mim própria, que chego mesmo a acreditar que é verdade.
Contado ninguém acredita.

02 dezembro, 2009

01 dezembro, 2009

" - Mas não és tu que dizes para cantar em vez de chorar?"
" - Pois... mas se continuar assim qualquer dia os vizinhos vão fazer queixa de mim à policia...!"



29 novembro, 2009

"Quem faz o que pode, a mais não é obrigado" dizes tu...

A questão é... e será que em algum momento nós faremos verdadeiramente tudo o que podemos?


24 novembro, 2009

Nem tudo o que não parece, não é.

E cá está ele outra vez: sempre oportuno. Ou então, sou mesmo eu que vou lá porque já sei onde encontrar a oportunidade. A oportunidade de ver aquilo que quero ver, aquilo que provavelmente mais ninguém vê, aquilo que até podia ser verdade, mas não é. Porquê? Erros que se repetem, um atrás do outro.

"Não é fácil as pessoas entenderem-se umas às outras seja como for. Pediste-me que te dissesse a melhor coisa que se pode dizer a alguém. E dizer-te que cá dentro tudo estremece quando estás por perto de nada serve. Porque por fora tudo se mantém igual."
Pedro Guerra

10 novembro, 2009

Parabéns!

Uma boa surpresa, abrir o google hoje de manhã e ver esta bela reliquia!



Pela imagem que tenho de mim na altura e tendo em conta a hora a que isso acontecia (recordo-me que estava ainda escuro lá fora) devia estar eu na pré primária, e lembro-me de estar sentadinha num banco em frente à televisão da sala, a minha mãe a pentear-me para ir para a escola e eu consolada a ver a Rua Sésamo.

As coisas que uma pessoa se lembra!

04 novembro, 2009

Sopro

Sim, é contigo que estou a falar, não tenhas dúvidas, como sempre tens quando vens aqui, se é que vens aqui, porque tu não vens. Culpa minha. Menos um ponto para mim. Não gosto de pedir. Nunca gostei. Tu sabes. Tu sabias. Eras a única pessoa que sabia. Escrever é mais fácil do que falar. Tu sabes. Tu escreves. Eu leio. Continuo a ler sabias?
Conseguiste, não consigo confiar mais. E isso está a matar-me por dentro. Depressa. Porquê? Porque não se pode tirar às pessoas aquilo que de melhor têm. A única coisa em que acreditam. Ás vezes a minha vontade é fazer-te engolir cada uma das palavras, as únicas, que me fazem ter medo de olhar para cima e de ver o céu a cair sobre mim. As mesmas que me prendem, que me arrastam todos os dias, por cada dia que insisto em procurar uma razão, por mais longínqua e improvável que seja, uma razão, para poder continuar a acreditar que é tudo uma questão de tempo, que tu nunca mentiste, que eu nunca desisti, que a falta não foi só minha, que o tempo não muda o que é verdadeiro, por mais penoso e convincente que seja, que a eternidade existe, que a mente não é só poeira, que a confiança é inabalável e que eu posso continuar a deixar-te aqui, sempre. Tu não sabes. Eu até consigo acreditar que tu não saibas, mas, por favor, não sejas tão injusto. Injusto. Eu mudo o que está errado: eu risco, eu rasgo, este, sempre o mesmo, destinatário. Eu preciso aprender a culpar-me pelos meus prantos. Deixa-me ao menos esse gosto de ser infeliz por minha causa. Livre e infeliz só porque sou assim. Dá-me um fim para eu começar. Eu nunca comecei.
Sabes por que te digo isto tudo aqui e não na tua cara? Porque não sei falar e porque ao menos tenho uma certeza: se leres isto, é porque vens aqui, e se vens aqui então nem tudo é injusto e este texto faz todo o sentido; se não leres isto é porque não vens aqui, logo o texto não faz qualquer sentido e eu escuso de ter que admitir que me fazes falta. E de cair, outra vez.

E não era nada disto que eu vinha deixar aqui hoje, mas estou cansada de frases incompletas. E de não ter razão.

8:00 AM


29 outubro, 2009

Era uma vez uma casa. Numa outra vez, numa outra idade – quase a mesma – era uma vez o velho que vivia nessa casa. O velho não tinha nome. A sua mãe tinha sido rainha e o seu pai não tinha sido nada. A mãe morreu quando ele nasceu. O pai nunca mais viveu desde que a mãe morreu. Por isso, o velho não tinha nome. A casa era pequena, fria no inverno e quente no verão. Nas paredes enegrecidas pelo lume – que todos os dias, sempre à mesma hora, o velho acendia dentro da larga chaminé – não havia fotografias, não havia espelhos, não havia sequer um mal concebido calendário. O chão de pedra, de água só conhecia a salgada, que a mão pesada do velho escorraçava da face decalcada pelo excesso de tempo, sempre que um outro dia brotava: lentamente: tortuosamente.
O velho não gostava de falar. Só gostava de ouvir. Mas não falava nem ouvia: não falava porque não gostava e não ouvia porque não tinha ninguém para ouvir.
Às vezes parecia-lhe ouvir uma mulher a cantar. Naquelas vezes, que eram todas, em que ele acordava quando o sol nascia, e se deitava, na pequena cama de ferro onde nasceu, ainda o sol não se tinha posto. Em todas aquelas vezes em que ele ouvia a mulher a cantar e abria a porta que dava para a rua, a porta que dava para o jardim que já fora jardim, de flores e de vida, e saía, devagar, como se fosse a primeira vez.
A única lembrança que lhe dá peso à memória é a do dia em que ela morreu. Ele já não tinha pai, e tal como o pai já não tinha nada. Ela tinha tudo: menos vida de sobra. Quando ela era viva, ele nunca ouviu a voz dela e, talvez por isso, a ouvisse tão bem agora. Porque ela tinha a voz que ele entendia. Cantava o que ele lhe pedia.


O velho que um dia foi novo, atravessa o jardim sem cores só mais uma vez - como sempre - só para a encontrar: perpétua, imóvel, irremediavelmente no mesmo sítio: sentada, encostada à, ainda branca, parede do casão, de olhos fechados e braços abertos. Sempre ali, à espera que ele chegue e se sente, calado, imóvel, perto o suficiente para a olhar. Olhar e ouvir, porque ainda tem alguém para ouvir. E ela canta. E ele sente-a viva. E ele esquece-se. Ela pede desculpa. E ele morre feliz.

21 outubro, 2009

18 outubro, 2009


"Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam."
José Luis Peixoto in "Nenhum Olhar"

E eu sinto-me... desgastada.

12 outubro, 2009

Como me caiu bem esta noite de verão em pleno Outubro!

Uma noite daquelas em que o ar fica mais doce,
e eu consigo por fim, espreitar a segurança que o dia não me dá...

07 outubro, 2009

Paragens.


Não o conheço de lado nenhum, simplesmente gosto de o ler.
Justamente por causa disto:

"Ela chegou e disse: não aguento mais, vou morrer. Ele encostou-se para trás na poltrona, sorriu e respondeu: o problema é que não vais."

Pedro Guerra

30 setembro, 2009

Se a vida fosse mesmo dois dias: estava lixada. O polegar já programado para actuar naquelas horas em que nada faz sentido, carregava desmotivado no comando de números gastos, ornamentado com a fita-cola que lhe adiava a reforma. O telemóvel inanimado em cima da secretária, habituado a ser alvo de olhares descrentes, parece indiferente ao ambiente taciturno que se vivia naquele quarto: mais uma vez. Ficava assim, sempre que não tinha a mente ocupada com qualquer trabalho exaustivo, ou o espírito entretido com uma daquelas reconfortantes visões utópicas que tão bem a fantasia sabe desenhar. Habituara-se a fazer dessas imagens coreografadas ao pormenor, uma alternativa bem mais eficaz à contagem dos carneirinhos. Tornou-se a única solução para a quebra da rotina demolidora, e verdadeiramente desastrosa, a que, desde certo dia, se tinha aliado: não dormir. Pior que isso: não dormir por razão nenhuma. Mas através desse seu novo método de escape, a fuga para a conciliação com a noite estava facilitada, e a ordem regente durante o dia, restabelecida. Pelo menos dentro do imaginário dela, não do possível.
Afigurava-se muitas vezes de mochila às costas e máquina fotográfica na mão, deslumbrada pela beleza das aldeias gregas, do branco, indiscutivelmente puro para os seus olhos fascinados, e daquelas falésias detalhadamente recortadas pelo mediterrâneo. Noutras vezes, era com o seu cavalo preferido que percorria as planícies alentejanas, de encontro a quem merece mais do que recebe, levando consigo mimos e pózinhos de vida, de paz. E as flores que a esperavam à porta sempre que chegava a casa depois de um dia generosamente atribulado? E os sorrisos e os abraços de que se orgulhava tanto de dar, sem medo, sem racionalizar: sem ser diferente. Se era impossível, ela fazia-o: todas as noites, no silêncio negro do conformismo.
Mas agora estava ali, chateada com o tempo por chamá-la à razão, ansiosa pela chegada do depois, depois, depois de amanhã, sempre tão mais fácil de viver que o hoje.
Um dia. Um dia vou conseguir. Num ápice de revolta contida, desliga a televisão e olha mais uma vez para o telemóvel. Nada. Tens a certeza? O aparelho parece permanecer indiferente à sua presença torturada. Decidida mas contra vontade, agarra nas folhas amarelas espalhadas sobre a cama e atira-as pela janela. Como quem foge da própria sombra, agarra apenas nas chaves e sai de casa no mesmo minuto, como se esta estivesse a arder.
Na rua, os transeuntes seguram nas mãos perplexas, pequenas folhas amarelas escrevinhadas a lápis, aparentemente caídas do céu.
No interior da casa, o telemóvel toca.

29 setembro, 2009

Espada de dois gumes.

"Por isso escrevo esta história. Porque sinto a sua falta muitas vezes. Gostaria de lhe perguntar se ela se lembra como eu me lembro, mas sei que sim. A Cláudia sempre gostou de desaparecer, mas isso não significava, de modo algum, que as coisas lhe fossem indiferentes. Eu sei que ela se lembra, sei que foi feliz então, como eu fui. Mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silencio, que me zanguei com o seu ultimo desaparecimento, que vivo amuado com ela desde então. Não é verdade, Cláudia. "
in "No teu Deserto"