
04 maio, 2010
E nós habituamo-nos, a cada dia, a cada idade, a procurar (já em modo obrigatório e irrefutável) esse lobo mau, apenas porque ele tem que existir.
Mesmo que ele não nos encontre, nós temos que procurá-lo, porque só assim poderemos ser pessoas melhores, só assim poderemos mostrar que somos capazes, fortes, de mostrar o que valemos e de ganhar a nossa recompensa (que será certamente mais do que um chocolate). Resta saber se nesta educação propagada, se instruem vítimas ou super-heróis.
Mas quem havemos de escolher? Um amigo que nos rouba o boné só porque é um miúdo de 6 anos, e os miúdos de 6 anos (alguns, espero) divertem-se quer a ouvir rir, quer a ouvir chorar. Os professores? Aquele professor, que até ensina bem e que até pode ter recebido o prémio Nobel da paz, mas que coitado, reúne de forma quase perfeita as características de um vilão exímio. Ou ainda os pais, que pelas circunstâncias proximais se tornam alvos tão vulneráveis, sendo nomeados por muitas amostras de gente como os criminosos pioneiros, capazes das maiores atrocidades, e que pela ligação emocional tão bem serão passíveis de serem reprimidos (olha que escolha tão conveniente!). O que não quer dizer que não haja um “quê” de razões viáveis nestas perseguições. Obviamente em qualquer teoria que envolva pessoas não há regras. Provavelmente só um mar excepções.
O pior é quando nos apercebemos de que essas nossas escolhas já não têm razão de ser (se é que algum dia tiveram) porque os nossos motivos, as nossas verdades, simplesmente mudaram. E aí vemo-nos desprovidos de armaduras e sacos de boxe, a consciência apodera-se de nós e obriga-nos a abandonar esse vilões tão bem desenhados, e a procurar outros, mas agora com um leque tão menos variado de hipóteses, que a imaginação atreve-se a ser solicitada como a principal ferramenta. Tão ousada chega a ser, que quando queremos controlá-la já não conseguimos, porque ela já se estabeleceu, já se erigiu por detrás dos nossos olhos. Quando queremos pensar já não conseguimos: porque já encontrámos, ou construímos, esse vilão dentro de nós. Apenas porque tem que haver sempre um lobo mau.
30 abril, 2010
Make 'Em Laugh
Para assinalar o dia mundial da dança (ontem!), lembrei-me destes verdadeiros acrobatas (ou será mágicos?) da 7ª arte. A ideia (pois está claro) era ter posto este video aqui ontem, mas como não deu, cá vai ele agora =)
Quem ainda não viu o filme, aconselho vivamente que veja!
(Não se admirem do video não dar para ver aqui no blog, mas não deixaram!)
26 abril, 2010
15 abril, 2010
Se a trovoada era motivo de aflição para alguns, para ela era mais um bom motivo para se ir sentar junto à janela, à espera da noite que não tardaria. Da janela não via mais do que uma casa, onde junto à portada de vidro fosco, adivinhava o vulto de uma senhora a costurar, havia já muito tempo, ora não fosse ela desperdiçar algum raio de luz fugidio que por ali vagueasse. Havia algo de especial naquela senhora cujos traços nítidos até agora só imaginara. Ou tinha que haver. Como poderia de outra forma poder explicar o facto das roseiras que esta plantara no improvisado quintal da frente da casa permanecessem carregadas de cores voluptuosas o ano inteiro, com chuvas e noites extenuantes que com certeza ultrapassavam, em pelo menos mil, as dos outros anos.
Foi enquanto se revolvia em pensamentos mágicos para explicar o infinito, que reparou num menino de calções vermelhos, agachado, e totalmente encharcado, encostado à parede lateral da casa da sua vizinha ilusionista. Não lhe conseguia ver o rosto, que escondia entre os braços entrelaçados sobre os joelhos, aparentemente feridos. Entre os dedos, abreviava o que se assemelhava a um lenço branco. Preocupada com a criança – ou com a sua exoneração – fitou a chuva, talvez numa tentativa de a abrandar, e saiu, para a torrente que se debatia pelas ruas.
Quando chegou junto ao intacto roseiral, do rapaz já não havia sinal. No chão, uma poça de água tingida de branco, desdobrava-se em mil caminhos pelas pedras truncadas da estrada. E por entre a aparatosa chuva, um doce aroma a rosas aproximou-se dela, em sintonia com uma voz inesperada, que recebe sobressaltada:
“- Por mais que tente, será sempre tarde demais.”
Junto à porta aberta está a vizinha, de sorriso vago, a olhar para um relógio de bolso que segura na pequena mão: a mão de uma menina que não terá mais que dez anos, porque a vizinha não terá mais que dez anos. Sem desviar o olhar do relógio, retira do bolso do pequeno avental uma fita branca que enrola à volta do relógio. Nesse momento, em vez de chuva, desbocam palavras das nuvens cinzentas. E de onde outrora rompiam trovões e esboços desenhados no céu, ecoam violinos e acordeões. E o relógio da vizinha cansa-se, como o dia que se faz noite, como uma prece que se desanima, que se esvaece, só porque alguém soprou.
14 abril, 2010
08 abril, 2010
17 dezembro, 2009
Se o que mata mais é não ver...
Pedes-me um tempo, para balanço de vida.
Mas eu sou de letras, não me sei dividir.
Para mim um balanço é mesmo balançar,
balançar até dar balanço e sair...
Pedes-me um sonho, para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho, só dos de voar.
Agarras a minha mão com a tua mão
E prendes-me a dizer que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer, mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde e não ter
nem sentir o vento ardente a soprar o coração...
Pedes o mundo dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes, quando falha o chão,
o salto é sem rede e tens de abrir as mãos.
Pedes-me um sonho para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte se volta a colar.
E agarras a minha mão com a tua mão
E prendes-me e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer, mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde e não ter
nem sentir o vento ardente a soprar o coração.
Músicas perfeitas como sempre.
09 dezembro, 2009
02 dezembro, 2009
Toca a votar!
01 dezembro, 2009
29 novembro, 2009
24 novembro, 2009
Nem tudo o que não parece, não é.
"Não é fácil as pessoas entenderem-se umas às outras seja como for. Pediste-me que te dissesse a melhor coisa que se pode dizer a alguém. E dizer-te que cá dentro tudo estremece quando estás por perto de nada serve. Porque por fora tudo se mantém igual."
17 novembro, 2009
10 novembro, 2009
Parabéns!

Pela imagem que tenho de mim na altura e tendo em conta a hora a que isso acontecia (recordo-me que estava ainda escuro lá fora) devia estar eu na pré primária, e lembro-me de estar sentadinha num banco em frente à televisão da sala, a minha mãe a pentear-me para ir para a escola e eu consolada a ver a Rua Sésamo.
As coisas que uma pessoa se lembra!
04 novembro, 2009
Sopro
Conseguiste, não consigo confiar mais. E isso está a matar-me por dentro. Depressa. Porquê? Porque não se pode tirar às pessoas aquilo que de melhor têm. A única coisa em que acreditam. Ás vezes a minha vontade é fazer-te engolir cada uma das palavras, as únicas, que me fazem ter medo de olhar para cima e de ver o céu a cair sobre mim. As mesmas que me prendem, que me arrastam todos os dias, por cada dia que insisto em procurar uma razão, por mais longínqua e improvável que seja, uma razão, para poder continuar a acreditar que é tudo uma questão de tempo, que tu nunca mentiste, que eu nunca desisti, que a falta não foi só minha, que o tempo não muda o que é verdadeiro, por mais penoso e convincente que seja, que a eternidade existe, que a mente não é só poeira, que a confiança é inabalável e que eu posso continuar a deixar-te aqui, sempre. Tu não sabes. Eu até consigo acreditar que tu não saibas, mas, por favor, não sejas tão injusto. Injusto. Eu mudo o que está errado: eu risco, eu rasgo, este, sempre o mesmo, destinatário. Eu preciso aprender a culpar-me pelos meus prantos. Deixa-me ao menos esse gosto de ser infeliz por minha causa. Livre e infeliz só porque sou assim. Dá-me um fim para eu começar. Eu nunca comecei.
Sabes por que te digo isto tudo aqui e não na tua cara? Porque não sei falar e porque ao menos tenho uma certeza: se leres isto, é porque vens aqui, e se vens aqui então nem tudo é injusto e este texto faz todo o sentido; se não leres isto é porque não vens aqui, logo o texto não faz qualquer sentido e eu escuso de ter que admitir que me fazes falta. E de cair, outra vez.
E não era nada disto que eu vinha deixar aqui hoje, mas estou cansada de frases incompletas. E de não ter razão.
29 outubro, 2009
O velho não gostava de falar. Só gostava de ouvir. Mas não falava nem ouvia: não falava porque não gostava e não ouvia porque não tinha ninguém para ouvir.
Às vezes parecia-lhe ouvir uma mulher a cantar. Naquelas vezes, que eram todas, em que ele acordava quando o sol nascia, e se deitava, na pequena cama de ferro onde nasceu, ainda o sol não se tinha posto. Em todas aquelas vezes em que ele ouvia a mulher a cantar e abria a porta que dava para a rua, a porta que dava para o jardim que já fora jardim, de flores e de vida, e saía, devagar, como se fosse a primeira vez.
A única lembrança que lhe dá peso à memória é a do dia em que ela morreu. Ele já não tinha pai, e tal como o pai já não tinha nada. Ela tinha tudo: menos vida de sobra. Quando ela era viva, ele nunca ouviu a voz dela e, talvez por isso, a ouvisse tão bem agora. Porque ela tinha a voz que ele entendia. Cantava o que ele lhe pedia.
O velho que um dia foi novo, atravessa o jardim sem cores só mais uma vez - como sempre - só para a encontrar: perpétua, imóvel, irremediavelmente no mesmo sítio: sentada, encostada à, ainda branca, parede do casão, de olhos fechados e braços abertos. Sempre ali, à espera que ele chegue e se sente, calado, imóvel, perto o suficiente para a olhar. Olhar e ouvir, porque ainda tem alguém para ouvir. E ela canta. E ele sente-a viva. E ele esquece-se. Ela pede desculpa. E ele morre feliz.
21 outubro, 2009
Pequenos contributos
Liguem o 760305505 (0,60€ + iva) e sorriam! Porquê? Só vão ficar a saber se ligarem =)
18 outubro, 2009
12 outubro, 2009
07 outubro, 2009
Paragens.
Não o conheço de lado nenhum, simplesmente gosto de o ler.
Justamente por causa disto:
"Ela chegou e disse: não aguento mais, vou morrer. Ele encostou-se para trás na poltrona, sorriu e respondeu: o problema é que não vais."
06 outubro, 2009
Um dos tantos...
...Que nos aquecem a alma.
92.0 FM ! Finalmente! =D
Só nosso!
(http://www.agencialusa.com.br/index.php?iden=27308)




