27 maio, 2010

24 maio, 2010

Efeito(s) de Estufa

Se não estivesse a sentir a minha pele a melindrar-se pela fervura já sem exalação a que a estava a submeter sem razões lógicas aparentes, diria-me capaz de não pensar.
Hoje julguei ver a tua sombra. Estava de costas, a despedir-se com um abraço de uma rapariga que já preparava as saudades que não iria ter. Ver a tua sombra já não deveria ser algo que me alarmasse, visto que até a ti te vejo volta e meia, a não ser que, num autocarro de 52 lugares, ela se viesse sentar precisamente ao meu lado.
Descalçou-se, arriou o encosto, sem olhar para quem quer que pudesse estar a esmagar no banco de trás, e abriu o livro de capa azul por ler que trazia na mão: “O Alquimista”.
Ainda mal tinha aberto a primeira página, já empenhava um lápis preto na mão, que de parágrafo em parágrafo lhe amparava o queixo pensativo. E depois sublinhava – ou riscava – alinhavando aquilo que eu não conseguia imaginar: talvez estivesse a sublinhar o futuro, ou então a dispor estacas na memória, por cada círculo que gizava à volta de cada número de página.
Compondo um esforço com o pescoço contrário ao do pensamento, tentava focar-me na paisagem sempre igual que o vidro que não via água há alguns dias me mostrava, como um ecrã provido de um único canal, o mesmo de sempre, mas naquele dia tão irrelevante. Se o ser humano tem como desculpar os seus erros apenas sendo-o, também deve ser (humanamente) normal querer saber sempre mais do que o que somos capazes de entender. Como tal, e não querendo alhear mais atenção que a que me é destinada, procuro através dos meus mais velozes desvios oculares, perscrutar o que de tão importante pode ditar aquele livro na vida de uma sombra. Mas não consigo ver nada. Ora o sol estonteante que se julga superior em tudo quanto é folha branca, ora uma posição mais confortável para ler que me tira as palavras assinaladas do campo visual.
Fazendo de conta que a indiferença existe, ajeito e desajeito o cabelo milhentas vezes (como se as sombras conseguissem ver, cheirar ou ter cheiro). O mp3, já de impulsor a descoberto pelo uso, condensa no tecto do autocarro toda a luz que o atordoa, conduzindo-a em movimentos rápidos numa dança improvisada, ou recordando alguma supergigante vermelha que ainda não saberia onde morrer, dando asas à imaginação que ainda há de ser, de uma menina loira, estrategicamente vestida de um branco que grita por presságio, que está sentada ao colo do pai.
No momento em que o autocarro abranda para começar a entrar em quarto decrescente, adivinhando-me distraída, o sol rega-me a vista e obriga-me a fazer mais que fechar os olhos: em jeito de negação, rodo a cabeça e, desejando mas sem querer, leio na contracapa do livro agora fechado: “Ouve o teu coração, porque onde ele estiver é onde estará o teu tesouro”.
E quando entre notas, noutra hora escritas em sintonia com o atrito da estrada, as pálpebras ousam dar descanso aos olhos desgastados, como se assim pudessem desviar o endereço do sol, a sombra da tua sombra aproxima-se, e eu quase que te ouço suspirar.
"Nobody knows the rhythm of my heart."

20 maio, 2010

Leves, cegos rumores,
Hastes penosas, desditosos mísseis.
Medos, Mentes, tremores,
Que nas suposições alteiam impossíveis.

19 maio, 2010

Devia ser proibido.












Animula vagula, blandula,
Hospes comesque corporis,
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos…

P.Elius Hadrianus, Imp.

18 maio, 2010

" That I would be loved even when I numb myself
That I would be good even when I am overwhelmed
That I would be loved even when I was fuming"

09 maio, 2010

Aceleração

"The only way out is through"... e de que maneira (!)

Sinto-me maravilhosamente perdida. Formidável!

(E como se isso não fosse já motivo de alarme, a acompanhar o pânico e o sorrisinho estúpido permanente, ainda há músicas que ousam enumerar-se a si próprias e tocar em momentos impróprios, altamente fragilizados. Olé!)
(E só não ponho a dita cuja agora aqui porque tenho mais que fazer, tipo fingir que durmo.)
(Ok, eu calo-me.)
E viva o Benfica! =)

08 maio, 2010


Ai... O quanto me iria fazer bem uma futebolada destas à moda antiga!
(E viva o Portimonense! =D)


05 maio, 2010




Parafusos (acho que) tenho todos.
Um botão de reiniciar, seria pedir muito?

04 maio, 2010



Às vezes só precisava de alguém que, no meio das suspeitas quase evidentes, pudesse afirmar sem hesitar:
Ela não é assim.
Não é só isto.
É uma das primeiras coisas que nos ensinam. Demonstram-nos e corrigem-nos quando ousamos balbuciar mãe, pai, água, pão e, quase que com a mesma insistência (ou até importância) que há um lobo mau à espreita, um papão, um velho escondido algures, ou na melhor das hipóteses, um policia que nos vem buscar se nos portarmos mal ou não comermos a sopa. Como se a existência de um mau da fita fosse imprescindível para crescermos, para nos tornarmos pessoas.
E nós habituamo-nos, a cada dia, a cada idade, a procurar (já em modo obrigatório e irrefutável) esse lobo mau, apenas porque ele tem que existir.
Mesmo que ele não nos encontre, nós temos que procurá-lo, porque só assim poderemos ser pessoas melhores, só assim poderemos mostrar que somos capazes, fortes, de mostrar o que valemos e de ganhar a nossa recompensa (que será certamente mais do que um chocolate). Resta saber se nesta educação propagada, se instruem vítimas ou super-heróis.
Mas quem havemos de escolher? Um amigo que nos rouba o boné só porque é um miúdo de 6 anos, e os miúdos de 6 anos (alguns, espero) divertem-se quer a ouvir rir, quer a ouvir chorar. Os professores? Aquele professor, que até ensina bem e que até pode ter recebido o prémio Nobel da paz, mas que coitado, reúne de forma quase perfeita as características de um vilão exímio. Ou ainda os pais, que pelas circunstâncias proximais se tornam alvos tão vulneráveis, sendo nomeados por muitas amostras de gente como os criminosos pioneiros, capazes das maiores atrocidades, e que pela ligação emocional tão bem serão passíveis de serem reprimidos (olha que escolha tão conveniente!). O que não quer dizer que não haja um “quê” de razões viáveis nestas perseguições. Obviamente em qualquer teoria que envolva pessoas não há regras. Provavelmente só um mar excepções.
O pior é quando nos apercebemos de que essas nossas escolhas já não têm razão de ser (se é que algum dia tiveram) porque os nossos motivos, as nossas verdades, simplesmente mudaram. E aí vemo-nos desprovidos de armaduras e sacos de boxe, a consciência apodera-se de nós e obriga-nos a abandonar esse vilões tão bem desenhados, e a procurar outros, mas agora com um leque tão menos variado de hipóteses, que a imaginação atreve-se a ser solicitada como a principal ferramenta. Tão ousada chega a ser, que quando queremos controlá-la já não conseguimos, porque ela já se estabeleceu, já se erigiu por detrás dos nossos olhos. Quando queremos pensar já não conseguimos: porque já encontrámos, ou construímos, esse vilão dentro de nós. Apenas porque tem que haver sempre um lobo mau.
E desse já não podemos fugir. Ou podemos?

30 abril, 2010

Make 'Em Laugh

Para assinalar o dia mundial da dança (ontem!), lembrei-me destes verdadeiros acrobatas (ou será mágicos?) da 7ª arte. A ideia (pois está claro) era ter posto este video aqui ontem, mas como não deu, cá vai ele agora =)
Quem ainda não viu o filme, aconselho vivamente que veja!

(Não se admirem do video não dar para ver aqui no blog, mas não deixaram!)

Quando o que procuras encontra-te, e tu continuas a procurar...!

27 abril, 2010

15 abril, 2010

Seria um dia de chuva normal, não fosse o facto de estarmos em Junho. A tinta azul da janela estalava de cada vez que o vento escorraçava a água aflita por pousar em qualquer canto escondido. Um raio ao longe, um estrondo perto – um clarão que mata à distância, uma batida forte que estoura cá dentro.
Se a trovoada era motivo de aflição para alguns, para ela era mais um bom motivo para se ir sentar junto à janela, à espera da noite que não tardaria. Da janela não via mais do que uma casa, onde junto à portada de vidro fosco, adivinhava o vulto de uma senhora a costurar, havia já muito tempo, ora não fosse ela desperdiçar algum raio de luz fugidio que por ali vagueasse. Havia algo de especial naquela senhora cujos traços nítidos até agora só imaginara. Ou tinha que haver. Como poderia de outra forma poder explicar o facto das roseiras que esta plantara no improvisado quintal da frente da casa permanecessem carregadas de cores voluptuosas o ano inteiro, com chuvas e noites extenuantes que com certeza ultrapassavam, em pelo menos mil, as dos outros anos.
Foi enquanto se revolvia em pensamentos mágicos para explicar o infinito, que reparou num menino de calções vermelhos, agachado, e totalmente encharcado, encostado à parede lateral da casa da sua vizinha ilusionista. Não lhe conseguia ver o rosto, que escondia entre os braços entrelaçados sobre os joelhos, aparentemente feridos. Entre os dedos, abreviava o que se assemelhava a um lenço branco. Preocupada com a criança – ou com a sua exoneração – fitou a chuva, talvez numa tentativa de a abrandar, e saiu, para a torrente que se debatia pelas ruas.
Quando chegou junto ao intacto roseiral, do rapaz já não havia sinal. No chão, uma poça de água tingida de branco, desdobrava-se em mil caminhos pelas pedras truncadas da estrada. E por entre a aparatosa chuva, um doce aroma a rosas aproximou-se dela, em sintonia com uma voz inesperada, que recebe sobressaltada:
“- Por mais que tente, será sempre tarde demais.”
Junto à porta aberta está a vizinha, de sorriso vago, a olhar para um relógio de bolso que segura na pequena mão: a mão de uma menina que não terá mais que dez anos, porque a vizinha não terá mais que dez anos. Sem desviar o olhar do relógio, retira do bolso do pequeno avental uma fita branca que enrola à volta do relógio. Nesse momento, em vez de chuva, desbocam palavras das nuvens cinzentas. E de onde outrora rompiam trovões e esboços desenhados no céu, ecoam violinos e acordeões. E o relógio da vizinha cansa-se, como o dia que se faz noite, como uma prece que se desanima, que se esvaece, só porque alguém soprou.

"Destinos"

O pai tem a ideia;
A filha timidamente aceita;
E a irmã assiste divertida.
=)