29 maio, 2008

Música #4




A música, porque sei que tem um significado especial para a minha irmã,
E porque eu também gosto muito.
Este video em particular, porque estes foram em tempos, sem dúvida alguma, um dos meus desenhos animados preferidos. =)

Ah! Especial atenção à parte do parque de diversões! xD É tão lindo =D

26 maio, 2008

Era uma vez uma consciência.

Hoje vou jogar conversa fora. Quero dizer coisas sem sentido, falar sem medidas, opinar sem limites. Aquilo que toda a gente faz quando fala com os seus botões. Vá que os meus já nem me possam ouvir! E então quando ela se põe a repetir pela milésima vez que afinal é tudo uma questão de crescimento! Sim, amigos. Há quem descubra uma vez e isso seja-lhe suficiente, mas também há gente que tem que descobrir a mesma filosofia constantes e repetidas vezes! Loucura? Não! Chama-se crescer. Que não restem cá duvidas. E por falar em loucura, lembrei-me da falta dela. Não basta sermos mundialmente desproporcionados no que toca a dinheiro, se não, ainda o somos em loucura. Valha-nos Deus. Ou então não. Porque (com o devido respeito) mas só alguém no seu (ainda que ligeiro) estado de insanidade, é que dá assim de mão beijada um planeta inteirinho que tanto trabalho deve ter dado a construir, a uma cambada de tresloucados, que generosamente se auto intitularam de racionais. Ao menos que alguns ainda tivessem a decência e amabilidade para com o seu povo, de saltitar de livre vontade para debaixo do chão. Vês, vira o disco e toca o mesmo, tinha que ir lá parar! Ora não fosse esse o seu segundo maior desejo. Não perguntes qual é o primeiro que ela também não sabe. Deve ter sido porque o segundo lugar lhe pareceu bem. E olha que de segundos e terceiros e enésimos lugares percebe ela. Qual primeiro qual quê! Isso está fora de moda, pelo menos na terra do nunca. Ai não vos disse? É para lá que ela vai quando não tem nada que fazer (e entenda-se por nada que fazer, nada que lhe interesse ou apeteça fazer, ou seja, tudo. Algo que não é nem nunca foi associado a preguiça. São puras necessidades um tanto sobrenaturais que só em mentes perturbadas e almas complicadas se alojam. Que fique esclarecido senhor botão!) Pior que pensar no quão desesperada e infeliz poderia se tornar, com tantos atributos com que se gloriou nesta área, só mesmo quando descobre (sinal de crescimento!) que afinal é tudo tão simples como um querer e fazer. E quando ela vê que é mesmo verdade. Não há quem a aguente! Até porque já se sabe que são ventos de pouca dura. Ora pensamentos vêm, ora pensamentos vão. Ora uma maré de optimismo ora vamos lá mas é ficar destroçados mais uns tempos, que isto até deve ter a sua piada. Afinal, uns dizem que cada um tem o que merece, outros dizem que nós é que cativamos aquilo que (não) temos. Pior ainda! Alguns dizem que quando uma dor se prolonga durante demasiado tempo é porque tem alguma recompensa associada! E ainda querem gente sã para ir ao espaço! Só se não lerem, não ouvirem, não falarem, e acima de tudo, não sentirem! Porque é (mais que) sabido, que se querem perder quaisquer noções espaciais ou temporais só têm que fazer uma coisa: Sentirem! Mas sentirem bem, e muito, e desalmadamente. E, acima de tudo, não fazerem mais nada para além disso. Ora aí têm os ingredientes necessários para um bom voo sobre o abismo. Só não se esqueçam é de crescer! Ah, e algo fundamental: façam das ditas ironias e dos ditos acasos a vossa bíblia sagrada. Esses sim, são uns gajos bem porreiros e com uma capacidade suicida extraordinária. Nem eu teria ideias melhores, garanto. É tudo muito simples. Quando vem a onda de sentimentalismos e vitalidade, chama a coincidência que ela dá logo conta do assunto! Qual Rocky Marciano qual quê!
Então e a música? Uma verdadeira campeã nos penalties.
E o que o Rui não sabia é que afinal não se ama é quem ouve a mesma canção.
E não bebo. Olha se bebesse.

19 maio, 2008

Recordações

"Eu sou aquele que te quer ensinar
A viver feliz e amigos encontrar.
Eu sou aquele que sabe os seus limites,

Resolver problemas não é coisa de aflitos.

Aprender pode ser divertido
Nas brincadeiras deves ter maneiras
É importante saber comunicar
E falar das nossas emoções

Arranjar formas de negociar,
Há que não ter medo de ter medo
Pensa pela tua cabeça e aprende a dizer não!

Eu sou aquele que te quer ensinar
A viver feliz e amigos encontrar.
Eu sou aquele que sabe os seus limites
Resolver problemas não é coisa de aflitos. "


Uma música que alguém inventou exclusivamente para que a sala 1 da escola primária da Pedra Mourinha pudesse brilhar naquele tórrido dia no parque da juventude.
Como se sentiu orgulhosa aquela pequena e ingénua criança ali bem no meio da fila da frente...

14 maio, 2008

VII

A porta está aberta como sempre. Numa curiosidade de há muito por saciar dirijo-me na sua direcção… Em passos curtos e hesitantes percorro o passeio de calçada escorregadia, espelho do tempo húmido que dominou nesta acinzentada data. Entro. Um senhor de bigode branco, sentado num dos bancos compridos de madeira escura no centro da sala, de bengala pousada sobre os joelhos e de boina caída sobre o nariz, parece dormitar, indiferente à minha entrada no edifício. Junto a uns placares de cortiça repletos de folhas recheadas de tabelas e letras minúsculas, duas raparigas de aparência estrangeira, cada uma carregando às costas uma enorme mochila, parecem procurar seu destino por entre os panfletos afixados. Na porta, agora atrás de mim, entra de rompante um senhor alto, bem vestido, carregando uma única e pequena mala preta, dirigindo-se em passos largos e nervosos para a bilheteira. A casa quase vazia faz ecoar a voz rouca e sussurrada do senhor, chegando até mim quase imperceptível. Um chão antigo e decorado ao pormenor, abre caminho para outra porta que dá passagem novamente para o exterior, através da qual uma claridade baça e ofuscante me semicerra os olhos, enigmaticamente atraídos pelo desconhecido lugar. Desloco-me até essa porta e saio. O dia acabrunhado pelas pesadas nuvens negras torna ainda mais triste aquele local onde milhares já disseram adeus a quem partia e outros tantos já receberam de braços abertos quem de chegada estava. Eu, nem digo adeus nem recebo ninguém. Fico. Em silêncio.
Não obstante que a primeira vez que viria a entrar num comboio ainda estivesse para vir passados uns longos meses, bem como nunca tenha estado sequer numa estação à espera de alguém conhecido, o som do comboio em movimento sobre os pesados e imortais carris, sempre me transmitiu uma sensação inexplicavelmente mágica e nostálgica. Como se noutra vida tivesse presenciado com desgosto a partida de alguém querido, para algum lugar distante e insondado. Como se a dor de o ver partir trespassasse a própria morte e encarnasse em mim com a mesma crueza e sensibilidade. Como se a mágoa do adeus não pertencesse apenas a um único ser, mas a duas almas castigadas: à que partia, e à que via partir. Como se cada vez que começasse a ouvir ao longe o ruído penetrante e repetido da locomotiva, meu coração tomasse esse ritmo como sendo o seu e, em uníssono com a melodiosa e incessante batida férrea, me tirasse o fôlego e me largasse desmoronada sobre o chão de pedra áspero junto à porta da tua casa.
Aproximo-me da berma do passeio e debruço-me sobre as linhas negras e enferrujadas. Vejo-as estremecer num ritmo crescente e miraculosamente coordenado com o zunido que antes ouvira distante e que agora se aproxima de mim a uma velocidade vertiginosa. Num abraço sem reservas o vento solto empurra-me para trás, quase me derrubando, enquanto meus olhos se fixam questionados, no comboio que se atravessa soberano, a centímetros de mim.
Vigorosa e sem remorsos, a chuva começa a cair.

06 maio, 2008

VI

Um hábito que me fazia feliz. Um retrato diário do que parecia ser uma família perfeita. Quem diria.

Cai a noite. Um céu uniformemente pincelado de um azul infinito nos preenche a vista incansavelmente fascinada por cada ponto luminoso semeado por mãos sábias, aqui e ali pelas estradas da imensidão, tão pequena aos nossos olhos.
Acomodada no meu cantinho no banco de trás do carro, irremediavelmente junto à janela, vasculho entre as estrelas a protagonista da minha canção.
O rádio toca. A música quando ouvida á noite sempre teve um sabor especial. Uma arte que nos envolve e absorve, transportando-nos para lugares sem gente que Deus se esqueceu de criar.
Ao meu lado, na sua pequena e confortável cadeirinha, está a minha irmã, atenta ao que os meus pais nos lugares da frente estão a conversar, como se tentasse decifrar aquela linguagem estranha que os adultos insistem em utilizar para comunicarem. Mas o embalo do carro em movimento, por mais curta que seja a distância, é o suficiente para que logo desista de tentar desvendar aquele estranho diálogo, e feche aos poucos os seus pequenos, e já tão profundos olhinhos, adormecendo na sua tão feliz inocência.
Abro o vidro. Apesar de derradeiro, o verão ainda deixa dissipadas na aragem suas fragrâncias quentes e reconfortantes. Deixo o ar correr abruptamente para o interior do veiculo, como que buscando na sua impetuosidade ao cruzar com a minha cara, uma inspiração superior, uma fortaleza para as minhas crenças, tão infantilmente desenhadas. Enfeitiçada, deixo-me enredar na sua frescura densa e levito até às estrelas… -Fecha o vidro, ainda te constipas – interrompe-me a minha mãe. Contrariada, regresso à terra e lentamente rodo o manípulo, fechando o vidro.
A escola recomeçou faz poucos dias. Não que esta seja o meu lugar favorito, mas até fiquei contente que as férias acabassem. Já estava há demasiado tempo em casa sem saber o que fazer, e a minha mãe cansada de ouvir-me dizer que não sabia o que fazer! A única hora de que eu realmente gostava nas férias de verão era o fim da tarde quando podia ir para a rua brincar com as outras crianças minhas vizinhas e amigas das brincadeiras. Tirando isso, e mais ainda para quem ainda não conhece o verdadeiro trabalho escolar, sempre achei as férias de verão demasiado longas… Principalmente desde que te conheci.
Repito vezes sem conta a parte da letra já criada, fruto da noite e sem o papel como testemunho, para que numa próxima viagem a recomece no ponto onde a deixei, num ritmo que é só meu, numa página nas memórias da criança que um dia fui, num destino por mim traçado e fielmente consumado, até hoje.
*
Porque trago a música sempre comigo. A música e tu.

05 maio, 2008

Música #2



"Chorai, chorai
Poetas do meu país
Troncos da mesma raíz
Da vida que nos juntou."

"E se vocês
não estivessem a meu lado
Então não havia fado
Nem fadistas como eu sou."

É loucura, ouço dizer...

29 abril, 2008

Ligação

«Como o sol e a rosa», disse-nos ele, «Uma não vive sem a outra».
Lembrei-me desta frase no outro dia, quando pensava na intemporalidade das cicatrizes que nos amarram em portos de outrora, guardando promessas eternas, destinadas a ser aniquiladas. Resta saber por quem.
Mas o mais irónico, é o não haver surpresas face a esta destruição, tão descaradamente pré meditada. Há um lamento, mas um lamento resignado.
Uma realidade traçada que me esfumou a necessidade, oprimiu a vontade, e que, como se tivessem ganho vida, afastou-me os dedos do teclado, calando dentro de mim a súplica por uma palavra de coragem, renunciando o direito à amizade prometida.

07 abril, 2008

Fusão

Ruas imersas em saudade,
Badaladas de sinos distantes
Rumores de noticias velhas,
Olhares largados fumegantes…

De um fado soletrado
Nas janelas acorrentadas
Gélido fogo das horas que não passaram
Lágrimas vivas noutra vida me destinadas…

Gestos repetidos cuidadosamente.
Falas premeditadas, entre essas paredes frias,
Que desfalecem na vergonha e nas duvidas de quem desconfia
Ver explicado nas memórias futuras
Os traços que trazes gravados em tuas mãos inseguras,
Os desejos febris que prometes não revelar
A noite em que eu te espero entre os vultos de quem passa,
E tu insistes em não chegar.


Meu marinheiro que nega rumos
Vida que vem de ti, em arremessos de loucura e falta dela
Escolhes uma e a outra vida,
Na ânsia de fugir às garras dos acasos destinados a ser felizes.

Ousa o vento ver-te sorrir na minha ausência
Tenta-te o desejo por desertos consumados
Acolhe-te em seus braços, marés revoltas de liberdade
Ansiosa pelo dia da nossa revolução.


Pressinto a tua sombra por entre as árvores…
Como no sonho em que não eras tu.
Olho as águas, ansiosas por desvendar o teu reflexo.
Ouço já os teus passos pedindo desculpa pelo atraso.
Sei que vais dizer qualquer coisa sem sentido,
Que nem tu percebes porquê,
Mas eu quero ouvir-te.
Estás quase a chegar…
Sinto já o teu cheiro.
Não me vou virar, nem te vou chamar.
Tu sabes que eu estou aqui e que estou à tua espera.
Procuro-te nas águas, mas elas ainda não te vêem.
Não vai chegar, Canta-me a lua...

Não chegaste. Hoje, não vais chegar.

Ainda nem te conheço e já morro de ciúmes.

30 março, 2008

Música #1

No dia em que esta música não me fizer dançar...





...Eu não serei mais eu. =)

26 março, 2008

V

Se o mundo fosse uma grande tela branca e a mim me fosse dado o direito de a pintar, eu usaria todas as cores que não conheço, todos os traços e formas cujo nome me é estranho, todos os rostos que ainda não conheci, todos os lugares que nunca vou conhecer. Nas ruas estreitas de calçada rude, desenharia pés descalços e enegrecidos pela poeira, correndo atrás de uma velha e esfarrapada bola de trapos. À porta das casas de paredes brancas e janelas azuis, sentadas sobre o pequeno degrau da entrada, senhoras fariam rendas e picôs, trocando experiências e deveres com as demais, sempre atentas às brincadeiras e travessuras dos mais pequenos. As cidades seriam pequenas povoações espalhadas aqui e acolá, que entre si apenas diferiam no lugar onde se tinham estabelecido. Em cada centro e em cada avenida, a música viria de todo o lado: do chão, das paredes, dos arvoredos, do céu, das fontes, e principalmente, das pessoas. Não haveria quem não cantasse por essas ruas fora, fosse por que razão ou por que sentimento mais forte, ninguém teria vergonha de o cantar aos ouvidos do seu mundo. Melodias e canções improvisadas se misturariam numa combinação perfeita na brisa sempre amena com aromas de alecrim. Quando a felicidade era unânime, as ruas outrora locais de trabalho ou passeio, viravam verdadeiros palcos movediços, onde personagens reais dançariam em sintonia com seus companheiros de vida e com a sua própria música, em passos desde sempre sabidos e bem ensaiados, como uma onda que cresce em alto mar, mas que jamais chega a morrer na praia.
Aqui, nunca ninguém se sentiria só e a tinta não desbotaria com o tempo. A ilusão não seria pura, traria escondida entre seu mar de nevoeiro, verdades esvoaçantes prontas a aterrar sem pára-quedas. As diferenças seriam respeitadas e tidas apenas como sinais particulares de riqueza. E a dor… essa andaria sempre de braço dado com a esperança que, em suas mãos de seda, guardaria com mil cuidados e doçura a certeza de uma recompensa feliz, desde o princípio esperada ansiosamente. Sofrer seria inevitavelmente sinónimo de crescer, e mais, toda a gente saberia disso.
Se o desejo fosse esse, num sopro suave e veloz perderíamos, durante o tempo necessário, a forma humana para um estado de invisibilidade aos olhares alheios, para numa certeza reconfortante ver justificado no vazio o porquê da indiferença sentida e para que as lágrimas fruto das palavras não ouvidas e das flores não beijadas, pudessem correr em liberdade, sem a condenação de mentes julgadoras, questionando matérias sem resposta.
No meu mundo perfeito, tu olharias a lua e lembrar-te-ias de mim.

13 março, 2008

Because of you.

Recuso-me a responder. Porquê fazer essa pergunta quando a questão que me queres colocar na realidade é “estás viva?”. Talvez aí eu te respondesse, mesmo que correndo o risco de te mentir.
Mas não. Em vez disso recorres sempre àquela mesma inútil e vaga pergunta de quem na verdade não quer ouvir a verdadeira resposta. Não, não está tudo bem. Está tudo errado. Totalmente do avesso. Surpreendida? Não estavas à espera pois não? E agora, o que vais fazer? Nada. Não porque não possas mas porque não sabes. Se te culpo por não saberes? Não. Mas culpo-te por não tentares perceber o que há para além de ti, por não seres humilde o suficiente para reconhecer os teus erros e o facto de não seres a única pessoa que sofre neste mundo, ou que muito menos essa tua dor é mais importante ou menos suportável do que as outras. Por não quereres aprender a crescer e a te libertares desse ser egocêntrico e intolerante que te rasga a alma e te cega o espírito. Egoísmo que atribuis àqueles que te querem ajudar e que acima de tudo não querem cair no mesmo poço que tu. Dizes-me que fazes tudo o que podes? Não, não fazes. Não sei se porque assim viste fazer ou porque achas que é o que está correcto, mas é com pena que te digo que esse tudo resume-se à supressão das necessidades básicas, aquelas que representam o suficiente para qualquer ser vivo sobreviver. Mas como ser humano precisava de muito mais. E ainda preciso. Se estiveres disposta a mudar, também eu tentarei reaprender a aceitar, a receber e valorizar qualquer tentativa, qualquer esforço de proximidade e cumplicidade que possa vir de ti. Não quero que estas minhas palavras te catapultem para um abismo distante ou que te sirvam de pretexto para seres ainda mais infeliz do que já és. Quero que as encares com a crueza com que eu tas escrevi, e com o mesmo espírito aberto com que eu aprendi que caminho não deveria seguir, para não cometer os mesmos erros que tu. Sei que não o suportarias ouvir, nem eu seria justa se te dissesse que toda a minha dor nasce em ti, por mais mágoa e revolta que sinta por nunca em ti ter encontrado aquele porto seguro, onde uma voz doce nos promete que tudo se vai resolver, como nos filmes e novelas de finais felizes ou como naqueles personagens reais que encontro todos os dias na rua, no autocarro… olhares prematuros que, como o meu, ainda pouco conhecem do mundo mas que nessa espera ansiosa pela vida prometida sabem o quanto é bom sentir um ombro amigo sempre por perto, que melhor do que ninguém nos deveria conhecer e compreender, sem julgar, sem porquês. Se ter inveja é mesmo pecado, então eu sou culpada.
Se a vida não te deu o que querias, não insistas em nos fazer acreditar de que não há retorno quando numa porta escolhemos entrar. Mesmo que isso seja verdade, és tu quem nos deve convencer de que é mentira, de que há sempre outra oportunidade. Tenta encontrar em ti a melhor forma de te reafirmares como pessoa livre e independente, e ao mesmo tempo de me ensinares tudo aquilo que eu ainda desconheço e que é teu dever me ajudares a viver. Foi para isso que Deus te criou. Viver… talvez seja essa a palavra-chave do que trago preso no peito desde que me lembro e que me levou a escrever-te. Viver, no seu mais nu e puro significado… Sabes o que é? Eu ainda não sei, mas sinto que me falta pouco para lá chegar… Preciso de pelo menos mais uma coisa, a mais importante sem dúvida: que não me prendas àquilo que gostarias que eu fosse e me ajudes a melhorar aquilo que quero ser. Diz-me para não ter medo...
E de uma coisa nunca duvides, não há ninguém com quem eu me pareça mais do que contigo.

04 março, 2008

IV

Comecei o dia a pensar em ti. O vidro da janela do meu quarto parecia não suportar a imensa fúria do vento que impetuosamente esmagava pesadas gotas de chuva contra um difuso e distante reflexo, triste, que parecia enclausurado lá fora, por entre a maré revolta e demolidora deste vento que não dá tréguas e desta chuva que teima em cair quando já não é devida. É noite…Ainda o sol não se atreveu a despertar para quase inutilmente tentar impor-se por entre as grandes nuvens negras que sem remorsos entristecem este dia que ainda não começou, assim como este ser que me olha fixamente do lado de fora... olhar pesado, interrogador, de quem não entende o porquê de estar ali. Rosto que busco por entre os corredores enevoados da minha memória, olhar que se esconde por entre as sombras da noite e que parece gritar em silêncio por alguém que o leve para porto seguro, longe desta gélida noite de Inverno.
Levanto-me. É hora de começar a despachar-me para a ainda longa viagem que me separa de quem eu preciso.
Uma distância que percorro ansiosa, mas nostálgica... É, sempre gostei de viajar, de percorrer com os meus olhos todos estas ruas e planícies, de inspirar com fervor o cheiro molhado da terra lavrada, inalando o fresco aroma dos pinheiros e das doces mimosas, de reconhecer aqui e ali lugares que me são familiares, apesar de nunca os ter visitado na maioria dos casos, mas reconheço-os à distância, pela naturalidade e simplicidade imutáveis com que percorrem o tempo e nos contam histórias imortais gravadas nesta terra e guardadas no silêncio destas ramagens, que não conhecem mais nada para além do lugar onde nasceram. Como isso lhes é suficiente e tranquilizante.

Chegámos. Sinto já o cheiro do limoeiro que desde sempre me recebe junto à porta desta casa onde gerações cresceram e aprenderam a viver. Como está grande o meu pequeno Figo... e como parece contente apesar de todos estes anos que já cumpriu neste lugar que lhe destinaram sem outra escolha lhe oferecerem.
A horta, os animais, a terra, as pedras com que a minha imaginação de criança se deliciava horas e horas. As paredes caiadas, o telhado velho, o chão gasto, o casão, a cabana improvisada de tantos anos, a pequena varanda de onde viajo incansavelmente de estrela em estrela em noites quentes de verão. Os caminhos de terra, o poço, a figueira, tudo no lugar que lhe pertence, tudo como sempre conheci. E por momentos, sinto que o mundo é perfeito, ou pelo menos este, também meu lugar, aqui, em pleno alto Alentejo.

O mesmo sorriso de sempre nos aguarda junto à porta. Espelho de uma alma desgastada pela vida de trabalhos no campo onde sem folgas ou muito menos férias, se vive um dia de cada vez… E de sapatos gastos e roupa velha, seja na geada ou sob a chuva que filtra os escassos raios de sol no Inverno, ou debaixo do esgotante e arrasador sol de verão, os afazeres no monte parecem nunca ter fim. Rosto cansado, de quem dos deveres nunca descuidou, nem sabe o que isso é. Não são escolhas, são necessidades que ditam com o hábito aquilo em que cada um se torna e se transforma de corpo e mente e, para quem vive no campo, sem retorno também. Essas pessoas podem até mudar de vida, mas felizes longe deste seu mundo, não o serão jamais.

Olho o céu agora limpo, e recordo um dos meus sonhos mais bonitos. Livre, voava sobre a casa, sobre as árvores, percorrendo a vários metros do chão a estrada que parte do monte e que descansa no horizonte. Como foi bom sentir a brisa morna bater-me na cara, como é feliz a liberdade.

07 fevereiro, 2008

III


Faz-me sorrir.
Nos dias menos bons, um sorriso sorrateiro, tímido, meigo, que de leve adoça um espirito desconsolado. Nos outros, um sorriso inocente de quem sente cada um dos sentidos despertado por esse aroma transparente e juvenil que veste a natureza na Primavera.
Jóias de um branco puro reluzente que mergulha delicadamente em tons de rosa nesses ramos desenhados sobre o imponente azul, encantam os olhares de quem passa, com uma beleza impar, como em tudo o que a natureza guarda em si.
Desço as escadas apressada, na ânsia de mais uma vez e outra poder ficar assim, durante vívidos instantes, observando-te, com o espanto de quem te deslumbra pela primeira vez. Só para sentir a caricia da brisa quente que entra pela janela, e que parece trazer consigo um pouco dessa naturalidade e pureza com que abraças os teus dias. Gosto de ficar a olhar-te, assim, sem barreiras entre o que meus olhos alcançam e o que de ti posso arrecadar em mim, recolhendo em cada instante sob a minha pele, essa luz viva que ofereces sem nada em troca receber, respirando essa frescura que te nasce nos ramos vestidos de branco, numa simplicidade feliz e tranquila, como a de quem tudo dá de si ao mundo, com a certeza de que o inspira com o que de melhor tem em si: a beleza de uma amendoeira em flor.


31 janeiro, 2008

II

Não gosto da confusão das grandes cidades. Multidões que correm daqui para ali, numa corrida contra o tempo ou contra si próprias com a desculpa de que têm compromissos inadiáveis e obrigatórios. Alguns, imprescindíveis para a sobrevivência, dizem. É verdade que sem trabalho ninguém sobrevive neste país, ou pelo menos quem não nasceu rico nem ganhou a lotaria, mas não menos verdade será dizer que apesar de uma corrida necessária, quem entra nela, seja por força do hábito ou por necessidade dessa rotina demolidora, já não sabe viver de outra forma. É, confesso que no fundo, há qualquer coisa que me fascina nesse frenesim estonteante que é a baixa lisboeta em hora de ponta.
Sentamo-nos, em silêncio. A escadaria de mármore, enegrecida pelo tempo (ou pelos pés menos asseados dos fiéis devotos ou de viajantes curiosos) reflecte os últimos raios de sol deste, ainda curto, dia. É ali, entre o silêncio crente que se respira na casa do Senhor, e a miscelânea de sons que se entrecruzam e se difundem na brisa que antevê a noite, que nós nos costumamos encontrar, permanecendo assim, durante longos minutos, respirando a cidade e observando as pessoas, os seus passos acelerados de quem tem que fazer uma ultima corrida para chegar a casa, ou dos mais descontraídos, que aproveitam a baixa para passear e pôr a conversa em dia, vozes que se entrelaçam e se completam, e aqui e ali, olhares desatentos que revelam em segredo um pensamento distante envolto em desejos, dissimulado entre sonhos.
- Já reparaste o quanto podemos aprender com uma criança?
Não foi preciso responder-te. Sabias que o cenário a escassos metros à nossa frente tinha despertado em mim a mesma linha de pensamentos. Uma menina esguia e arrebitada contava, eufórica, o que tinha aprendido na escola à mãe, que atentamente e deliciada com a alegria sincera da filha, a olhava com doçura e escutava o que a pequena lhe contava.
- Há momentos que mereciam um retrato não achas?
Sorriste - Vamos, está a ficar fresco.
Descemos a rua, por entre a corrente de pessoas que parecia vir maioritariamente em sentido contrário ao nosso. Uma ansiedade miudinha se apodera dos nossos sentidos, e um desejo crescente de começar a escutar, ainda que distante, aquela melodia doce e triste, que entoa pelas pedras da rua, pelas pessoas, cada vez mais perto, mais dentro do peito, preenchendo a alma e elevando ao mais perfeito pormenor aquele fim de tarde.

30 janeiro, 2008

I


Como eu gostava de falar contigo. Ficar assim, horas e horas, falando de tudo e às vezes de quase nada. Isso não nos importava, aliás, era o que de mais especial havia nas nossas conversas, era esse interesse mutuo pelas banalidades da vida, que ao mesmo tempo se revelavam como o que de mais intenso e realmente importante acontecia no nosso dia a dia. Nunca precisávamos de pretexto para manter a conversa viva. Havia sempre alguma novidade para contar, algum pormenor sobre nós mesmos que nunca tínhamos revelado, alguma coisa no outro que nunca tínhamos reparado, havia sempre alguma pergunta que queríamos ouvir e uma resposta que tanto queríamos dar. Mesmo quando permanecíamos em silêncio, uma troca infinita de confissões e desejos mais tímidos se deslocava no tempo que nos separava.
Era já fim do dia... o rio de prata nascido sob o azul, embalava em tons meigos de rosa os pilares brancos e reluzentes desta ponte, cujo fim meus olhos não conseguiam alcançar. Num espelho sem imperfeições, o céu todo decorado servia de pano de cenário para duas gaivotas solitárias viajantes. Solitárias para as outras, mas nunca entre si.
O canto doce dos melros que ressoava dentro da minha alma, pedia-me que fechasse os olhos e caminhasse, depressa o quanto bastasse para sentir viva sobre a minha pele arrepiada a brisa fresca da noite que se aproxima, mas devagar o suficiente para sentir sob os meus pés já cansados, todas e cada impressão decalcada nas pedras gastas da velha calçada... Velha, não de anos, mas pela sofreguidão com que é espezinhada repetida e incessantemente todos os dias por dezenas de pessoas que, umas mais atentamente, outras menos, gostam de desfrutar deste lugar que agora percorro contigo, em segredo.



29 de Janeiro, 2008