"E dia é tão diário disso tudo."
21 outubro, 2008
Uma noite para comemorar, onde o mundo é um pouco de céu para quem jurou cumplicidade, de olhar preso ao lume vivo, espelho de cada lugar que é teu...
Um momento mágico. Minutos de pura inspiração, pelos quais toda a gente deveria passar pelo menos uma vez por dia, todos os dias. E a vida pareceria tão mais fácil...
É caso para dizer..." E que a Mafalda vos acompanhe!"
Bonita noite a de ontem =)
Obrigada aos intervenientes ! =)
"Mesmo que a vida mude os nossos sentidos,
E o mundo nos leve pra longe de nós,
E que um dia o tempo pareça perdido,
E tudo se desfaça num gesto só..."
Ainda assim, estão guardados.
09 outubro, 2008
08 outubro, 2008
Parágrafo.
O autocarro estava quase cheio. Um rapaz no banco da frente revirava-se de instante em instante tentando arranjar uma posição mais cómoda para dormir. A vários bancos atrás, um miúdo, talvez nos seus dois anos, abraçado à avó choramingava, chamando pelo irmão e pela mãe que tinha deixado para trás, onde ele já não estava. No banco imediatamente atrás, um homem, numa língua que não a delas, continuava o seu longo diálogo de intensas três horas (ou pelo menos para quem o ouvia). Conscientes e tranquilas, de auscultadores nos ouvidos, a Determinação e a Coragem, de decisões entrelaçadas e desenhos reflectidos, olhavam agora para a imensa Lisboa, disformemente matizada por milhares de pontos cintilantes disputando a atenção alheia, e que, levando o tempo necessário, se aproximavam a cada instante mal vivido, pacientemente: o autocarro deslocando-se sobre a ponte, de encontro a uma cidade viva; e uma cidade ansiosa por viver, mergulhando-se no rio de encontro a um tempo que já existiu.
Uma lua dourada, pequena, cresce timidamente diante dos seus olhos, grandes. A música faz-se sentir e o momento acontece: na plenitude traída, a felicidade é cimentada, caiada: E aí, aí surge vida.
01 outubro, 2008
Da Imperfeição.
Chora. Chora tudo. Não guardes em ti, para ti, nem uma lágrima. Grita. Faz-te ouvir. Fá-los ouvir. Porque ninguém se importa realmente. Porque ninguém chorará contigo, em ti, por ti. Cada um chorará por si. Lamentará por si. Revolta-te. Revolta-te por chorares por eles, para eles, por ti, e sempre só para ti. E chora. Chora por teres que chorar, por ti, por eles. Faz entoar dentro de ti os ultimatos, as razões e as respostas: A culpa. Chora a culpa, que é só tua, por teres de chorar: Fraca. És fraca. Por isso é que choras. Não é por eles, nem por ti é. Esqueceste-te de porque choras. Ninguém irá ouvir. Fraca. Pára de chorar.
30 setembro, 2008
Sou.
Um misto de vontade e submissão.
Um fôlego de esperança, um arrebatamento de evidência.
Um pedaço arrancado e acorrentado ao peito.
Um desejo de ir e a promessa de ficar.
Uma resposta. Duas perguntas.
Uma cópia do vivido e consumado.
O desconsolo. O fogo retratado.
Todos os futuros, filhos de um só passado.
Um acorde. Uma palavra. Tantas vidas.
A folha. O vento. O instante interrompido.
Uma incerteza entre tantas certezas incertas.
Alguém que quer ser e não sabe como.
22 setembro, 2008
Outono
Quando a Eva me contou que te tinhas mudado eu não acreditei. Não que isso não pudesse acontecer, afinal a casa já não vai para nova, mas sempre achei que isso não estivesse nos teus planos, pelo menos por agora. Pelo menos dessa maneira.
Cheirava a chuva e a pipocas doces. O ar estava despropositadamente abafado. Ia a caminhar para o carro, quando uma voz inconfundível e familiar adivinha o meu nome. O rosto remetente sorria: uns olhos grandes, dos quais nunca consegui decifrar a cor, atravessavam-me, doces e desassossegados.
Ainda nessa manhã, como poderia ter sido noutra, como era em todas, eu olhei para ele. Desde o dia em que mo deste que o guardo naquela gaveta. Ofereceste-mo, mas não me explicaste como deveria cuidar dele. Já pensei em pô-lo num vaso de pé alto ao pé da orquídea e regá-lo, esperando que recuperasse o brilho de outrora, mas ele não me pareceu muito agradado com a ideia. Uma tarde destas, peguei-o com jeitinho e pendurei-o por uma corda na varanda, confiando que quando sentisse o ar e o aquecesse delicadamente, rejuvenescesse e se lembrasse dos seus tempos de glória e de ser imprescindível e admirado, por tudo quando é ser vivo, que era. Mas também não resultou. Resignada, voltei a guardá-lo na gaveta da mesinha de cabeceira: um Sol abatido, fosco, de raios franzinos, lamentando-se, em silêncio.
Ela não se apresentou. Sabia que não precisava apresentar-se, assim como sabia que eu nunca a tinha a visto, assim como sabia que eu não a conhecia, assim como sabia que eu sabia quem ela era. Contou-me como passou por ti e te cumprimentou e tu fingiste que ela não estava lá. Contou-me como te perguntou o que estavas a fazer e porque tinhas o carro carregado de tudo. Contou-me como tu a olhaste: olhar vazio, inundado em dúvidas construídas sobre certezas: umas que conheces, outras que nem tanto. Explicou-me como, sem palavras, lhe pediste que não fizesse mais perguntas e que te deixasse sozinho. Disse-me que estava preocupada, e foi-se embora. Não sei para onde foi, mas eu não esperei para ver.
Foi assim que soube que te tinhas mudado. Não te telefonei a perguntar porquê, nem para onde, porque ainda antes de partires, disseste-me que tinhas voltado. E há vazios que pressupõem a inexistência de perguntas.
De todas as vezes que por lá passei, olhando de forma mais ou menos discreta, mais ou menos convicta, de todas as vezes, encontrei a janela fechada e a persiana corrida, com apenas um palmo, o mesmo palmo, de janela descoberta até ao parapeito. E de todas essas vezes, atravessei a rua, devagar, e através da noite espreitei pela persiana quase fechada. Uma noite mais negra que a da rua vivia-se no interior da casa.
Foi tudo o que fiz e culpo-me por isso. Apenas por isso.
Há momentos perpétuos e instantes mágicos. Ou porque assim nasceram ou porque assim as pessoas o viveram. Há palavras quase perfeitas, que preenchem os dias de forma perfeita. Porque o dito não pode ser dado como não dito, quando é dito de forma quase perfeita, apenas porque perfeito nada o é.
E há pinturas resplandecentes que atraiçoam o olhar e o acusam de cegueira e de falta de autoria...
11 setembro, 2008
Pedaços
Antes que deixe de fazer sentido: também. Antes que se consuma, ou se reduza a pó, ou antes que o pó se derreta em formas esquivas e descuidadas. Antes que se arraste cambaleante para a inutilidade. Não: é porque já fez parte: já foi sinónimo, já foi definição. Mas hoje já não tem chão. Talvez não sejam boas razões…
Então, porque hoje é o dia de hoje. Está melhor?
09 setembro, 2008
Nove.
A espuma salgada fervilhava sobre a pele anestesiada, como um sangramento efusivo e descontrolado em contramão. O peito gelava, numa contagem decrescente de vida e crescente de liberdade. Não olhou para trás, porque esse caminho já o sabia de cor. Era em frente que queria ir. Era para baixo que o vazio sob os seus pés a levava. Foi quando a maré a trouxe: perfumada, decorada pelo luar: longe. Como um sopro asfixiante, sentiu-se elevada pelo colo da onda e envolvida no seu cobertor maternal: que em seus braços de frescura aconchegou-a, e perdeu-a para a escuridão. Para o nada. E é nessa altura que, à velocidade da luz, como um efémero arrepio, se sente vestida por um leve e incontornável arrependimento. Um som de pânico lhe percorre as entranhas. Sente os ouvidos esmagados pelo silêncio mergulhado. Os olhos suplicando por luz, fecham-se, contrariados pela evidência. O pensamento não existe: alivio. Pânico. Apenas porque tem de ser assim, movimenta os braços e as pernas em gestos largos e pouco decididos. Rendeu-se, mas não desistiu. Por fim desistiu, mas não perdeu a esperança. Sabe por que não a perdeu, mas não sabe por que a tem. Deixa-se levar pelo peso descoordenado do próprio corpo até à escuridão. Os pulmões gritando por vida pareciam querer rebentar dentro de si mesmos. Um ardor cortante a percorre por dentro. Vozes imperceptíveis sem remetente eclodem de todos os lados. Imagens mais que nítidas lamentam as escolhas. Rostos sãos e tristes relembram o que não volta. A dor de todas as horas que não renuncia…
Noite. Nove. Estrelas. Liberdade.
16 julho, 2008
10 julho, 2008
30 junho, 2008
IX
Mal abro a porta, sinto o cheiro a tinta fresca que percorre ainda a longa escadaria, de vidrais virados para poente. Percorremo-la devagar, prolongando a ansiedade, construindo os alicerces para as saudades que ainda estão para vir. – “Abre tu” -peço-te, estendendo-te a chave. Acedes ao meu pedido e descerras este nosso novo lar.
Ainda são muito poucos os móveis que a preenchem, dando-lhe um ar ainda mais espaçoso e arejado do que já realmente é. A escassa mobília de linhas direitas em tons cremes, condizendo com o pequeno sofá, parece em sintonia com o azul claro e disforme que perfaz duas das paredes da larga sala, numa das quais, uma enorme tela retrata um mar cristalino debruçando-se em ondas de espuma branca sob a límpida areia, como se vivo, despontasse da parede. O sol quente de fim do dia atravessa possante a grande janela de dobradiças brancas, ainda sem cortinas, espalhando seus raios firmes pelo chão luzidio. Desta janela, emerge uma comprida varanda sobre o jardim do prédio, recheado de amores perfeitos e rosas brancas. Abro o vidro até ao limite, para que o ar corrente que nos traz a rua nos encha de vida este nosso espaço.
Ficamos ali, olhando a rua e as pessoas que lhe dão um sentido. Respirando o sol que, sem pressas, se vai escondendo atrás do formoso chorão de galhos fartos. Sei que gostaste. Sinto-o. E isso é-nos suficiente.
A campainha toca... Como que quebrando o feitiço por obrigação.
Vou abrir. É ele. Uma voz hesitante de quem trespassou cercas privadas acaba por suspirar - “Desculpa se venho incomodar, não sei se estás acompanhada… Posso entrar? ”. Viro-me para trás, percorrendo com o olhar toda a sala. Vazia. Estendo o braço em sinal de recepção e um sorriso por escrever responde – “Estou sozinha. Entra.”
17 junho, 2008
10 junho, 2008
Quero.
Quero voltar. Quero continuar.
Não quero ter saudade.
Um dia.
Nesse dia, vais ler-te: insaciado, adormecido por entre as veredas espinhosas dos roseirais que plantaste. Fixarás o teu reflexo e descobrir-te-ás, estarrecido. Recordarás as pegadas que deixaste, desenhadas nos murais do ser insólito que repartiste entre teus submissos soldados. Já tarde, vais perceber o que te escrevo e porque te dirijo meus monólogos desencorajados. Não é por banalidades irresponsáveis. Não é por desejos carnais nem súplicas incoerentes. Não são declarações. Não são pedidos apaixonados, nem lamentos adolescentes. São frutos colhidos do mesmo ser, outrora rasgado e semeado em duas rectas perpendiculares, e que em portos ilusoriamente recuados fazem juramentos e quebram raízes que abatem a calçada. Abrem desvios pelo mato denso e palmilham descalços o inóspito firmamento. Destinos congénitos unidos erroneamente pela suposição. Um único caminho, percorrido a duplicar.
São estas as certezas de quem se lê de dentro para fora e se completa nas entranhas do que não é. Afinidades eloquentes entre vozes encanastradas, unidas e tecidas em quilómetros vastos de seda firme, pregadas nas palavras proferidas que carrego comigo, e nos silêncios que assentam na razão do que não foi uma escolha, mas que por louca obediência às crenças erigidas, se vive e permite, ainda que porventura sem saber, o alastramento da vida deste único ser.
08 junho, 2008
Música #5
Vinha a ouvir esta música no autocarro ainda agora (numa das muitas viagens que faço todas as semanas, já nem me lembro desde quando) e achei que seria uma boa música para vos deixar aqui. Gosto do dueto... Acho que são 2 vozes que se completam de uma forma muito especial. Só é pena não ser o videoclip, mas não deu para arranjar.
"Leve e que te beije, Meu anjo triste."
04 junho, 2008
Estado:
Revolta.
E, principalmente, porque há consciência disso.
Sabe-se como.
03 junho, 2008
VIII
Subitamente, o mais terno e suave dos toques me envolve e afaga as mãos entre as suas, acarinhando-as e enleando-as irreversivelmente entre seus laços de certas incertezas. E no mais confiante dos abraços me deixo desfalecer.
29 maio, 2008
Música #4
A música, porque sei que tem um significado especial para a minha irmã,
E porque eu também gosto muito.
Este video em particular, porque estes foram em tempos, sem dúvida alguma, um dos meus desenhos animados preferidos. =)
Ah! Especial atenção à parte do parque de diversões! xD É tão lindo =D
26 maio, 2008
Era uma vez uma consciência.
Então e a música? Uma verdadeira campeã nos penalties.
E o que o Rui não sabia é que afinal não se ama é quem ouve a mesma canção.
E não bebo. Olha se bebesse.
20 maio, 2008
19 maio, 2008
Recordações
A viver feliz e amigos encontrar.
Eu sou aquele que sabe os seus limites,
Resolver problemas não é coisa de aflitos.
Aprender pode ser divertido
Nas brincadeiras deves ter maneiras
É importante saber comunicar
E falar das nossas emoções
Arranjar formas de negociar,
Há que não ter medo de ter medo
Pensa pela tua cabeça e aprende a dizer não!
Eu sou aquele que te quer ensinar
A viver feliz e amigos encontrar.
Eu sou aquele que sabe os seus limites
Resolver problemas não é coisa de aflitos. "
14 maio, 2008
VII
Não obstante que a primeira vez que viria a entrar num comboio ainda estivesse para vir passados uns longos meses, bem como nunca tenha estado sequer numa estação à espera de alguém conhecido, o som do comboio em movimento sobre os pesados e imortais carris, sempre me transmitiu uma sensação inexplicavelmente mágica e nostálgica. Como se noutra vida tivesse presenciado com desgosto a partida de alguém querido, para algum lugar distante e insondado. Como se a dor de o ver partir trespassasse a própria morte e encarnasse em mim com a mesma crueza e sensibilidade. Como se a mágoa do adeus não pertencesse apenas a um único ser, mas a duas almas castigadas: à que partia, e à que via partir. Como se cada vez que começasse a ouvir ao longe o ruído penetrante e repetido da locomotiva, meu coração tomasse esse ritmo como sendo o seu e, em uníssono com a melodiosa e incessante batida férrea, me tirasse o fôlego e me largasse desmoronada sobre o chão de pedra áspero junto à porta da tua casa.
Aproximo-me da berma do passeio e debruço-me sobre as linhas negras e enferrujadas. Vejo-as estremecer num ritmo crescente e miraculosamente coordenado com o zunido que antes ouvira distante e que agora se aproxima de mim a uma velocidade vertiginosa. Num abraço sem reservas o vento solto empurra-me para trás, quase me derrubando, enquanto meus olhos se fixam questionados, no comboio que se atravessa soberano, a centímetros de mim.
Vigorosa e sem remorsos, a chuva começa a cair.
06 maio, 2008
VI
Cai a noite. Um céu uniformemente pincelado de um azul infinito nos preenche a vista incansavelmente fascinada por cada ponto luminoso semeado por mãos sábias, aqui e ali pelas estradas da imensidão, tão pequena aos nossos olhos.
Acomodada no meu cantinho no banco de trás do carro, irremediavelmente junto à janela, vasculho entre as estrelas a protagonista da minha canção.
O rádio toca. A música quando ouvida á noite sempre teve um sabor especial. Uma arte que nos envolve e absorve, transportando-nos para lugares sem gente que Deus se esqueceu de criar.
Ao meu lado, na sua pequena e confortável cadeirinha, está a minha irmã, atenta ao que os meus pais nos lugares da frente estão a conversar, como se tentasse decifrar aquela linguagem estranha que os adultos insistem em utilizar para comunicarem. Mas o embalo do carro em movimento, por mais curta que seja a distância, é o suficiente para que logo desista de tentar desvendar aquele estranho diálogo, e feche aos poucos os seus pequenos, e já tão profundos olhinhos, adormecendo na sua tão feliz inocência.
Abro o vidro. Apesar de derradeiro, o verão ainda deixa dissipadas na aragem suas fragrâncias quentes e reconfortantes. Deixo o ar correr abruptamente para o interior do veiculo, como que buscando na sua impetuosidade ao cruzar com a minha cara, uma inspiração superior, uma fortaleza para as minhas crenças, tão infantilmente desenhadas. Enfeitiçada, deixo-me enredar na sua frescura densa e levito até às estrelas… -Fecha o vidro, ainda te constipas – interrompe-me a minha mãe. Contrariada, regresso à terra e lentamente rodo o manípulo, fechando o vidro.
A escola recomeçou faz poucos dias. Não que esta seja o meu lugar favorito, mas até fiquei contente que as férias acabassem. Já estava há demasiado tempo em casa sem saber o que fazer, e a minha mãe cansada de ouvir-me dizer que não sabia o que fazer! A única hora de que eu realmente gostava nas férias de verão era o fim da tarde quando podia ir para a rua brincar com as outras crianças minhas vizinhas e amigas das brincadeiras. Tirando isso, e mais ainda para quem ainda não conhece o verdadeiro trabalho escolar, sempre achei as férias de verão demasiado longas… Principalmente desde que te conheci.
Repito vezes sem conta a parte da letra já criada, fruto da noite e sem o papel como testemunho, para que numa próxima viagem a recomece no ponto onde a deixei, num ritmo que é só meu, numa página nas memórias da criança que um dia fui, num destino por mim traçado e fielmente consumado, até hoje.
05 maio, 2008
Música #2
"Chorai, chorai
Poetas do meu país
Troncos da mesma raíz
Da vida que nos juntou."
"E se vocês
não estivessem a meu lado
Então não havia fado
Nem fadistas como eu sou."
É loucura, ouço dizer...
29 abril, 2008
Ligação
Lembrei-me desta frase no outro dia, quando pensava na intemporalidade das cicatrizes que nos amarram em portos de outrora, guardando promessas eternas, destinadas a ser aniquiladas. Resta saber por quem.
Mas o mais irónico, é o não haver surpresas face a esta destruição, tão descaradamente pré meditada. Há um lamento, mas um lamento resignado.
Uma realidade traçada que me esfumou a necessidade, oprimiu a vontade, e que, como se tivessem ganho vida, afastou-me os dedos do teclado, calando dentro de mim a súplica por uma palavra de coragem, renunciando o direito à amizade prometida.
07 abril, 2008
Fusão
Badaladas de sinos distantes
Rumores de noticias velhas,
Olhares largados fumegantes…
De um fado soletrado
Nas janelas acorrentadas
Gélido fogo das horas que não passaram
Lágrimas vivas noutra vida me destinadas…
Gestos repetidos cuidadosamente.
Falas premeditadas, entre essas paredes frias,
Que desfalecem na vergonha e nas duvidas de quem desconfia
Ver explicado nas memórias futuras
Os traços que trazes gravados em tuas mãos inseguras,
Os desejos febris que prometes não revelar
A noite em que eu te espero entre os vultos de quem passa,
E tu insistes em não chegar.
Meu marinheiro que nega rumos
Vida que vem de ti, em arremessos de loucura e falta dela
Escolhes uma e a outra vida,
Na ânsia de fugir às garras dos acasos destinados a ser felizes.
Ousa o vento ver-te sorrir na minha ausência
Tenta-te o desejo por desertos consumados
Acolhe-te em seus braços, marés revoltas de liberdade
Ansiosa pelo dia da nossa revolução.
Pressinto a tua sombra por entre as árvores…
Como no sonho em que não eras tu.
Olho as águas, ansiosas por desvendar o teu reflexo.
Ouço já os teus passos pedindo desculpa pelo atraso.
Sei que vais dizer qualquer coisa sem sentido,
Que nem tu percebes porquê,
Mas eu quero ouvir-te.
Estás quase a chegar…
Sinto já o teu cheiro.
Não me vou virar, nem te vou chamar.
Tu sabes que eu estou aqui e que estou à tua espera.
Procuro-te nas águas, mas elas ainda não te vêem.
Não vai chegar, Canta-me a lua...
Não chegaste. Hoje, não vais chegar.
30 março, 2008
26 março, 2008
V
Aqui, nunca ninguém se sentiria só e a tinta não desbotaria com o tempo. A ilusão não seria pura, traria escondida entre seu mar de nevoeiro, verdades esvoaçantes prontas a aterrar sem pára-quedas. As diferenças seriam respeitadas e tidas apenas como sinais particulares de riqueza. E a dor… essa andaria sempre de braço dado com a esperança que, em suas mãos de seda, guardaria com mil cuidados e doçura a certeza de uma recompensa feliz, desde o princípio esperada ansiosamente. Sofrer seria inevitavelmente sinónimo de crescer, e mais, toda a gente saberia disso.
Se o desejo fosse esse, num sopro suave e veloz perderíamos, durante o tempo necessário, a forma humana para um estado de invisibilidade aos olhares alheios, para numa certeza reconfortante ver justificado no vazio o porquê da indiferença sentida e para que as lágrimas fruto das palavras não ouvidas e das flores não beijadas, pudessem correr em liberdade, sem a condenação de mentes julgadoras, questionando matérias sem resposta.
No meu mundo perfeito, tu olharias a lua e lembrar-te-ias de mim.
13 março, 2008
Because of you.
Mas não. Em vez disso recorres sempre àquela mesma inútil e vaga pergunta de quem na verdade não quer ouvir a verdadeira resposta. Não, não está tudo bem. Está tudo errado. Totalmente do avesso. Surpreendida? Não estavas à espera pois não? E agora, o que vais fazer? Nada. Não porque não possas mas porque não sabes. Se te culpo por não saberes? Não. Mas culpo-te por não tentares perceber o que há para além de ti, por não seres humilde o suficiente para reconhecer os teus erros e o facto de não seres a única pessoa que sofre neste mundo, ou que muito menos essa tua dor é mais importante ou menos suportável do que as outras. Por não quereres aprender a crescer e a te libertares desse ser egocêntrico e intolerante que te rasga a alma e te cega o espírito. Egoísmo que atribuis àqueles que te querem ajudar e que acima de tudo não querem cair no mesmo poço que tu. Dizes-me que fazes tudo o que podes? Não, não fazes. Não sei se porque assim viste fazer ou porque achas que é o que está correcto, mas é com pena que te digo que esse tudo resume-se à supressão das necessidades básicas, aquelas que representam o suficiente para qualquer ser vivo sobreviver. Mas como ser humano precisava de muito mais. E ainda preciso. Se estiveres disposta a mudar, também eu tentarei reaprender a aceitar, a receber e valorizar qualquer tentativa, qualquer esforço de proximidade e cumplicidade que possa vir de ti. Não quero que estas minhas palavras te catapultem para um abismo distante ou que te sirvam de pretexto para seres ainda mais infeliz do que já és. Quero que as encares com a crueza com que eu tas escrevi, e com o mesmo espírito aberto com que eu aprendi que caminho não deveria seguir, para não cometer os mesmos erros que tu. Sei que não o suportarias ouvir, nem eu seria justa se te dissesse que toda a minha dor nasce em ti, por mais mágoa e revolta que sinta por nunca em ti ter encontrado aquele porto seguro, onde uma voz doce nos promete que tudo se vai resolver, como nos filmes e novelas de finais felizes ou como naqueles personagens reais que encontro todos os dias na rua, no autocarro… olhares prematuros que, como o meu, ainda pouco conhecem do mundo mas que nessa espera ansiosa pela vida prometida sabem o quanto é bom sentir um ombro amigo sempre por perto, que melhor do que ninguém nos deveria conhecer e compreender, sem julgar, sem porquês. Se ter inveja é mesmo pecado, então eu sou culpada.
Se a vida não te deu o que querias, não insistas em nos fazer acreditar de que não há retorno quando numa porta escolhemos entrar. Mesmo que isso seja verdade, és tu quem nos deve convencer de que é mentira, de que há sempre outra oportunidade. Tenta encontrar em ti a melhor forma de te reafirmares como pessoa livre e independente, e ao mesmo tempo de me ensinares tudo aquilo que eu ainda desconheço e que é teu dever me ajudares a viver. Foi para isso que Deus te criou. Viver… talvez seja essa a palavra-chave do que trago preso no peito desde que me lembro e que me levou a escrever-te. Viver, no seu mais nu e puro significado… Sabes o que é? Eu ainda não sei, mas sinto que me falta pouco para lá chegar… Preciso de pelo menos mais uma coisa, a mais importante sem dúvida: que não me prendas àquilo que gostarias que eu fosse e me ajudes a melhorar aquilo que quero ser. Diz-me para não ter medo...
E de uma coisa nunca duvides, não há ninguém com quem eu me pareça mais do que contigo.