24 maio, 2010

Efeito(s) de Estufa

Se não estivesse a sentir a minha pele a melindrar-se pela fervura já sem exalação a que a estava a submeter sem razões lógicas aparentes, diria-me capaz de não pensar.
Hoje julguei ver a tua sombra. Estava de costas, a despedir-se com um abraço de uma rapariga que já preparava as saudades que não iria ter. Ver a tua sombra já não deveria ser algo que me alarmasse, visto que até a ti te vejo volta e meia, a não ser que, num autocarro de 52 lugares, ela se viesse sentar precisamente ao meu lado.
Descalçou-se, arriou o encosto, sem olhar para quem quer que pudesse estar a esmagar no banco de trás, e abriu o livro de capa azul por ler que trazia na mão: “O Alquimista”.
Ainda mal tinha aberto a primeira página, já empenhava um lápis preto na mão, que de parágrafo em parágrafo lhe amparava o queixo pensativo. E depois sublinhava – ou riscava – alinhavando aquilo que eu não conseguia imaginar: talvez estivesse a sublinhar o futuro, ou então a dispor estacas na memória, por cada círculo que gizava à volta de cada número de página.
Compondo um esforço com o pescoço contrário ao do pensamento, tentava focar-me na paisagem sempre igual que o vidro que não via água há alguns dias me mostrava, como um ecrã provido de um único canal, o mesmo de sempre, mas naquele dia tão irrelevante. Se o ser humano tem como desculpar os seus erros apenas sendo-o, também deve ser (humanamente) normal querer saber sempre mais do que o que somos capazes de entender. Como tal, e não querendo alhear mais atenção que a que me é destinada, procuro através dos meus mais velozes desvios oculares, perscrutar o que de tão importante pode ditar aquele livro na vida de uma sombra. Mas não consigo ver nada. Ora o sol estonteante que se julga superior em tudo quanto é folha branca, ora uma posição mais confortável para ler que me tira as palavras assinaladas do campo visual.
Fazendo de conta que a indiferença existe, ajeito e desajeito o cabelo milhentas vezes (como se as sombras conseguissem ver, cheirar ou ter cheiro). O mp3, já de impulsor a descoberto pelo uso, condensa no tecto do autocarro toda a luz que o atordoa, conduzindo-a em movimentos rápidos numa dança improvisada, ou recordando alguma supergigante vermelha que ainda não saberia onde morrer, dando asas à imaginação que ainda há de ser, de uma menina loira, estrategicamente vestida de um branco que grita por presságio, que está sentada ao colo do pai.
No momento em que o autocarro abranda para começar a entrar em quarto decrescente, adivinhando-me distraída, o sol rega-me a vista e obriga-me a fazer mais que fechar os olhos: em jeito de negação, rodo a cabeça e, desejando mas sem querer, leio na contracapa do livro agora fechado: “Ouve o teu coração, porque onde ele estiver é onde estará o teu tesouro”.
E quando entre notas, noutra hora escritas em sintonia com o atrito da estrada, as pálpebras ousam dar descanso aos olhos desgastados, como se assim pudessem desviar o endereço do sol, a sombra da tua sombra aproxima-se, e eu quase que te ouço suspirar.

1 comentário:

GabriellaDreams* (: disse...

Bem.. agora deixast-me quase sem palavras.
Eu li,... e adorei. (: